Eu nem gosto de filosofia…

Às vezes não me reconheço. E não digo isto filosoficamente. Digo-o na prática. Hoje vi o meu reflexo num vidro e tive de olhar outra vez. A imagem que eu ali via era demasiado estranha. Era eu, SOU EU!, mas não na minha cabeça. Não por completo, ainda. Porque foram anos de outra maneira que não esta. Anos e anos a viver com uma bóia. Literalmente. Anos a desdizer o meu corpo, a minha imagem, os meus pensamentos. Mas os últimos anos de esforço, trouxeram-me aqui. A esta foto que tirei hoje, depois de ver o meu reflexo no vidro. Pedem-me, todos os dias, dicas, receitas, segredos para emagrecer. Eu respondo sempre: (re)começa. Não há pós mágicos, não há comprimidos milagrosos, não há comidas que façam perder peso. Só há esforço. Só há comida de verdade. Só há treino, muito treino. Tudo o resto é embuste. É perda de tempo.

Magra? Forte?

Sabem o que mais tenho ouvido ultimamente? Estás mesmo magra! Música para os meus ouvidos! Plim, plim, plim! Eu gosto desta sensação de ter as clavículas à vista, o que posso eu fazer?! Mas a bem da verdade, eu não estou bem magra. Estou mais leve, é certo, mas eu estou é forte para burro. E tenho sentido isso nos treinos, diariamente. Estou mais rápida, mais resistente, suporto ainda melhor a dor. Por isso, essa ambição que tive toda a vida, desapareceu. Apesar de hoje poder ser considerada como magra, já não é esse o título que eu quero. Eu sou forte, tenho porte, sou tipo uma árvore hirta, que se levar um encontrão se aguenta de pé (acho eu!). E gosto!

(Estou muito feia na foto, mas nota-se que sou badass à brava!)

Mas é preciso?

Mas é preciso treinar tanto? É outra das perguntas que tenho ouvido. E a resposta é: depende. Depende da tua condição física, depende dos teus objetivos, depende de um sem número de coisas.

Neste momento, o treino é muito mais do que uma imposição para que possa emagrecer. O treino passou a ser uma prioridade, uma vontade, uma necessidade. Eu treino muito e intensamente porque o meu corpo me pede.

E eu não sei explicar bem isto. Mas antes o meu corpo pedia-me doces e eu dava. Hoje pede-me treino e eu dou. Eu sei que parece que estou a gozar, mas é a mais pura das verdades.

Eu sinto uma espécie de formigueiro, uma cena doida. Diria que é hormonal. Também, se não for, as hormonas servem de desculpa para tudo. Eu acho que é! Treinar dá-me uma sensação de (des)conforto muito boa. Mexe comigo!

Treinar faz-me ter a forma física que desejo, é terapia, expulsa-me as raivas, acalma-me este espírito pecaminoso que o Universo me deu. Dá-me força, rapidez, resistência, em tudo o que possam imaginar.

Se é preciso treinar tanto? Cada um sabe de si e Deus Nosso Senhor sabe de todos, ok?

Produtos light, diet, zero

O marketing é tramado. Quer dizer, o marketing é uma invenção extraordinária, que nos faz ter vontade de adquirir coisas ou serviços mesmo que não estejamos muito necessitados disto ou daquilo. Os produtos light, diet ou zero são prova disso.

Quando as marcas perceberam que a população estava a engordar, e que a tendência era criar condições para a perda de peso, foi vê-las a lançar produtos light, diet ou zero. Passou a haver tudo com estes termos: pão, manteiga, compotas, refrigerantes, chocolates… Todos os produtos que engordaram as pessoas, em versão leve.

O que é que dava a sensação? Que se podia comer daquilo sem receios. Talvez tenha até havido um monte de gente que tenha achado que podia emagrecer ao ingerir aqueles produtos. Como se fossem atos inofensivos. Sem culpa para o excesso de peso, nem para a saúde.

Acho que, ao dia de hoje, as pessoas já não se deixam levar tanto na cantiga. Percebem que para aquelas coisas terem sabor, têm milhares de aditivos de toda a espécie. Percebem que um iogurte sem açúcar pode ser muito gordo ou o contrário.

Raramente compro produtos com estes rótulos. Porquê? Porque são mesmo muito artificiais. Absolutamente modificados, criados em laboratório, como se fossem uma espécie de detergente, que pomos para dentro de nós.

Acho cada vez mais importante consciencializarmos o maior número de pessoas que a verdadeira comida não vem em pacotes. Não é light, nem zero, nem nada. É comida. Composta por nutrientes, cada um com a sua função. Sobre isto, escreverei um dia destes.

Às escondidas!

Eu comi muitas vezes às escondidas. Quando a compulsão começou eu tinha 16 anos. Foi nessa idade que fiz a primeira dieta. Durante o dia passava muita fome, à vista de todos. Eu queria ser magra! Ao final do dia, como apanhava um autocarro diferente do dos meus amigos para ir para casa, comia. Comia hambúrgueres e bolos de pastelaria. Também comia gelado e chocolates. Comia sempre sozinha, escondida, com medo que alguém me visse, que alguém visse que estava a falhar.

Ontem, antes do treino, estava a comer uma tapioca sozinha no carro e senti uma sensação muito estranha. Uma sensação de paz gigante. Eu estava a comer no carro, sozinha,  porque estava demasiado cansada para o barulho do centro comercial. A única coisa que queria era usufruir daquela tapoica do bem, antes de me ir acabar no treino que me esperava. Eu só queria estar sozinha comigo. Porque se antes a solidão era um esconderijo, hoje é serenidade.

É impressionante como as mesmas situações podem ser vividas, e sentidas!, de formas tão distintas. É impressionante como podemos fazer com que a nossa vida evolua, se transforme. Ontem, eu podia perfeitamente ter pegado num bolo e ter ido para o carro, sozinha, para o comer longe dos olhares alheios, como fiz tantas vezes. Não foi o que aconteceu. E o mundo pode não acreditar, mas o mais importante disto tudo é mesmo esta boa relação comigo e com o meu corpo. Que eu não volte atrás. Magra ou menos magra. Que eu não volte atrás.

Ai, que medo!

Eu acho muita graça às pessoas que tentam dissuadir os outros pelo medo. Uma tirada ótima que tenho ouvido ultimamente é: não tens medo de ficar grande? Eu sinto muita vontade de rir, confesso!

É que eu constato que as pessoas que dizem isso não têm a mínima noção do que é preciso para mudar o corpo de forma a ficar grande. Aliás, se alguém dito grande ouvisse isso, talvez até se sentisse ofendido.

Porque são horas e horas de treino. Horas e horas de preparação de refeições. São vidas dedicadas àquilo. Vidas centradas na competição e nas vitórias. Alguns aditivos pelo meio, mas, quem somos nós para julgar?

Por isso não, gente que se preocupa com o meu futuro tamanho, eu não vou ficar grande. Esse medo eu não tenho. Os treinos que faço e a alimentação que mantenho só me deixarão assim p’ró gostosa. AHAHAHAH! Isso, gostosa! Vão ter de aguentar, ok?

Bolo de Chocolate


Ingredientes:
– 1 tablete chocolate de culinária sem adição de açúcar (comprei no Celeiro, na zona de alimentação para diabéticos);
– 2 colheres de sopa de óleo de côco;
– 6 ovos;
– 2 colheres sopa de farinha de côco.

Modo de Preparação:
1.° Derreter o chocolate com o óleo de côco em banho-maria. Deixar arrefecer;
2.° Bater as claras em castelo e juntar as gemas ao preparado anterior;
3.° Juntar a farinha de côco e misturar;
4.° Envolver as claras em castelo;
5.° Levar ao forno durante 15 / 20 minutos, a 180°.

Eu adicionei uma coberturazinha de manteiga de amendoim, só porque sim! Isto soube-me assim a um Snickers Maroto…! Foi o bolo de aniversário da minha mãe e ficou aprovadíssimo.

Querer e Poder

Há coisas que posso ter e não quero.

Há coisas que quero e não posso ter.

E o problema do querer e do poder é o facto de haver coisas que não dependem de mim. São essas as coisas que me encanitam, que me fazem ficar raivosa, por querer, querer muito, e não poder.

E outras, que estão ali, quietas, ao meu dispor, e não me causam a mínima comichão. Não mexem comigo, sequer.

Dizem que querer é poder e eu até concordo. Mas quem terá o poder de ter todo o seu querer?

Desfigurada

A minha mãe, a rainha das pérolas, diz que estou a ficar desfigurada. Está absolutamente contra o facto de eu não comer açúcar por tempo indeterminado, contra querer ficar mais magra, mais musculada. Afirma que estou a perder a graça toda e que estou a perder todo o meu juízo. Esta foto, segundo a minha mãe, prova a sua teoria. Sou toda ossos! Não sou, de todo, mas a minha mãe deve ter medo que eu ande mal alimentada ou assim. Não ando e já lhe disse isso, mas o que hei-de eu fazer? Nada, só sorrir e acenar. Sorrir e acenar e continuar esta minha vidinha de filha rebelde.

Açúcar, nunca mais?

[Nas cachoeiras do Brasil, a exibir o tanquinho.]

Não como açúcar PROCESSADO há 60 dias. Desde que anunciei esta decisão, tenho sido bombardeada com questões: mas não comes porquê? Queres ficar mais magra? Que mal tem comer só de vez em quando? Não estás a exagerar? Até quando vais fazer isso? É para sempre?

Eu não sou extremista, não gosto de fundamentalismos, mas em relação ao açúcar tenho algumas convicções. Estas convicções são sustentadas pela ciência, mas não só. Surgem, também, da minha experiência de dietas sem fim e dos meus episódios de compulsão alimentar, que me atormentaram durante anos. É sobre tudo isto, este texto.

Posso começar por escrever que o açúcar é algo que traz ZERO benefícios à nossa existência. Pelo contrário: só traz MALEFÍCIOS. Um deles é o vício. Lá chegarei. Se precisamos de açúcar para viver? Claro que sim! A fruta e os amidos, como a batata doce e o arroz, dão-nos tudo o que precisamos a esse nível.

Em termos científicos, pode dizer-se que para perder massa gorda há um requisito: estar em défice calórico. Ou seja: tem de se gastar mais calorias do que aquelas que se ingerem. Claro que há mil e uma formas de o fazer… Se é possível consumir açúcar processado e perder massa gorda? É. Traz algum benefício? ZERO. Os açúcares são calorias vazias, por isso, têm nenhum valor nutricional. Logo, se o caminho que tenho feito tem sido o de comer para me nutrir…

A única coisa que podemos todos concordar é que o açúcar sabe bem. Mexe com tudo! É um grande prazer momentâneo, de muito curta duração. Usei os alimentos com açúcar como conforto durante anos a fio. Eu era viciada em açúcar. Ficava de ressaca se não o comesse. Assumo-o e falo disso porque sei que posso ajudar outros.

Tenho aprendido que vida é feita de escolhas e prioridades e, por isso, dei por mim a levantar algumas questões. O que é que me dá mais prazer: comer um pedaço de bolo e ter de 30 segundos de fogo de artifício nas papilas gustativas ou ver-me ao espelho, ou em fotografias, e ter prazer em ver o meu próprio corpo?

Mais, o que será mais importante: comer por prazer ou ter o prazer de perceber que o meu corpo é capaz de coisas que nunca tinha imaginado, fisicamente falando. Quando é que na minha vida me imaginei como atleta? Nunca! Nunca, porque sempre pus o prazer fácil e instantâneo à frente do que agora venho a descobrir.

Neste sentido, esta minha decisão será para sempre? Nem eu serei eterna, graças a Deus. Não sei. Agora sei que não vejo motivo de voltar a comer uma coisa que me desestabiliza a imensos níveis: o humor, a pele, a força, o desempenho atlético, a vontade de comer mais.

A isto tudo acresce o facto de ter tido um distúrbio alimentar mais que diagnosticado. Trabalhei esta coisa de ter de conseguir comer só uma bolacha do pacote, mas fui muitas vezes mal sucedida. Na verdade, basta pensar num ex-alcoólico: alguém lhe daria um copo de vinho para a mão e lhe diria para beber apenas um golo? Ou pedir a um ex-fumador para dar apenas um bafo? Comigo é mais ou menos isto.

Habituámo-nos a comer açúcar, mas basta irmos a alguns lugares no mundo para percebemos que há gente que vive lindamente sem ele. Experimentemos ir Alaska dar um cubo de açúcar a um esquimó ou a índio de uma tribo remota. Qual será a reação deles?

Por tudo isto, reforço apenas uma ideia: neste momento as minhas prioridades mudaram. Com elas chegaram novos prazeres, novas formas de estar. Neste momento o açúcar PROCESSADO não tem lugar na minha vida. Passaram 60 dias, creio que passarão muitos mais. Talvez até deixe de os contar.