Esta sou eu.


Eu tenho a cara torta. Sempre tive e sempre soube disso. Um dia o meu dentista, que é amigo da minha família e me conhece desde que nasci, confirmou-me o que eu já sabia. Eu tenho a cara torta. Usei aparelho nos dentes para corrigir, mas acho que isto acabou por voltar ao que estava. Houve um ano na escola em que uns simpáticos colegas decidiram chamar-me Capitão América, por causa do meu queixo exuberante. Foi só mais uma alcunha, no meio de tantas que eu já tinha tido ao longo da minha vida na escola. Lembro-me que fizeram um desenho meu, uma caricatura, e que o expuseram no quadro de cortiça da sala. Uns amores, portanto. Bons cidadãos mesmo. Durante muitos anos evitei fotografias que focassem muito o meu perfil. Houve até a possibilidade de me serrarem a cara para corrigir isto, mas teria de ficar três meses a comer por uma palhinha. Fiquei assim. Hoje tirei esta selfie e lá está o meu queixo torto e saliente. Hoje não me incomoda nada. Não sou perfeita. Já deixei de querer ser. Esta sou eu.

Jantares

Há pessoas que adoram o pequeno-almoço. Outras que deliram com os almoços que se prolongam pela tarde. Há ainda quem se passe com jantaradas até altas horas. Eu adoro todas as refeições. Adoro comer de manhã, a meio do dia, à tarde e à noite. Sou uma moça de grande apetite e não o nego. Gosto muito de comer. Facto. Porém, desde que mudei de vida que os jantares passaram a ter uma atenção especial.

Durante muitos, muitos anos, eu passei o tempo a privar-me de comer durante o dia. Foi quando comecei o ciclo das dietas, aos 16 anos. Espalhei aos sete ventos que ia emagrecer, que queria emagrecer e, por isso, passava o dia numa profunda contenção. No secundário, meses a fio, eu almocei uma sopa e uma peça de fruta. Eu achava que era por passar fome que ia emagrecer.

O que é que acontecia depois? Chegava ao fim da tarde com uma fome, que nem Deus Nosso Senhor me valia. Ninguém me valia. Só o pão com manteiga, os bolos de pastelaria que comia a caminho de casa, os menus de hambúrgueres, os pacotes de aperitivos de queijo. Foi nesta altura que comecei a desenvolver um comportamento de compulsão alimentar. Foram muitos anos de sofrimento. De privação e de exagero, numa angústia que me parecia não ter fim.

Chegava a casa e comia mais. Jantava o que havia para jantar, porque a minha família não me controlava nisso (talvez o devesse ter feito). Resultado? Eu nunca consegui atingir os meus objetivos porque, na verdade, o meu comportamento era tudo menos equilibrado. Emagrecia e engordava. Engordava e emagrecia. Vezes sem conta. Vivia numa permanente frustração comigo própria. A desejar coisas que me pareciam impossíveis.

Hoje, e depois de muitas consultas e de muita reflexão, percebo que eu fazia tudo ao contrário. Hoje é durante o dia que me alimento de tudo o que devo. Como pão, iogurtes, legumes crus, frutos secos, fruta fresca, carne, peixe, ovos, tudo isto. Para além das refeições principais, faço um lanche a meio da manhã e dois durante a tarde, o segundo pouco tempo antes de treinar.

Ao jantar, como muito, muito pouco: um prato de sopa e um ovo cozido, uma lata de atum com legumes, uma omeleta… Vegetais e proteína, sem muitos exageros. Porque a verdade é que janto muito pouco tempo antes de dormir e tudo o que comer me vai parar à anca. Por isso, não vale a pena inventar muito. Eu continuo a adorar jantar e dou a vida por uma tarde de petiscos, mas não posso fazer disso um hábito.

Antigamente eu ficava super frustrada por perceber que não podia comer certas coisas sempre que me apetecia. Que tonta! Agora eu percebo que eu não tenho de fazer esta escolha, se assim o entender. Mas o que eu percebo também, é que é muito mais importante me sentir bem comigo, vestir as roupas que gosto e ser confiante, do que comer arroz à noite. Muito, muito mais.

E então, como estamos até agora?

Já passaram 3 dias do ano novo. Sei que parece pouco tempo para se fazer um balanço do que quer que seja, mas as coisas começam pelo princípio, por isso, hoje parece-me ser o dia ideal para uma reflexão. Já voltaram a pensar nos desejos da meia noite de dia 1? Ou nunca mais pensaram nisso? Desejaram o quê: ser mais tolerantes? Ter mais tempo? Comer melhor? Fazer um treininho de meia hora por dia? Levantar mais cedo para não sair de casa sem tomar o pequeno-almoço? Arranjar a roupa no dia anterior, para que de madrugada não vos apeteça ir de pijama trabalhar? Foi alguma coisa deste género? Mas depois voltaram ao trabalho e o vosso colega foi mais do que irritante que há e a vossa atitude foi tudo menos tolerante. E tiveram mil pontas para acertar e tempo nem vê-lo. Como se não chegasse, chegaram ao sítio onde costumam almoçar e só havia qualquer coisa muito próxima de esparguete à bolonhesa ou bacalhau com natas. Treinar? Querem é enfiar-se na cama, tanto que é o frio e a chuva. Por aí adiante. De repente, parece-vos que nada do que desejaram se cumprirá nos próximos anos, porque o dia a dia é um caos e percebem que, talvez e afinal, 2018 é que é mesmo o ano. Desenganem-se! Cada vez mais acredito que a vida é o que fazemos dela. Mais: é o que fazemos com o que a vida nos dá ou o que fazemos para que a vida nos dê [o que queremos]. Assim sendo, recomecem tudo de novo amanhã. E depois. E depois. Não há nada melhor do que controlar a nossa própria vida. Até porque isso é o suposto, não o contrário.

Ano Novo

Ontem, enquanto ouvia toda a gente aos gritos e o barulho do fogo de artifício, anunciando a chegada do ano novo, eu só pensei em duas coisas: em ter saúde, muita saúde, e em ser uma pessoa absolutamente focada. Focada no cuidado com o meu corpo e com a minha alma. Focada no meu trabalho e na minha profissão. Focada nos treinos. Focada nos que me são queridos. Focada nos meus objetivos e no que tenho de fazer para os atingir, sem desculpas. Para que isto tudo aconteça, preciso de saúde. Só quero isto. Por tudo, que só quero isto. Já fui uma menina muito pedinchona, mas agora não. Agora só quero ter a capacidade para fazer as coisas acontecerem, em vez de esperar que simplesmente aconteçam. 2017? Estou cheia de fé.

2016

Não me queixo de nada, 2016. Foste um ano bom. Foste o ano dos meus 30. Foste o ano em que me senti melhor comigo. Foste o ano de muitas coisas boas, intensas. Também me deste alguns desgostos, mas nada que me deitasse abaixo ao ponto de não me levantar. É, foste um ano bom, 2016! Mas lamento dizer-te creio muito mais no teu sucessor. Algo que me diz que 2017 será O ano. Eu vou esfalfar-me por isso.

Corte bordado ou como acabar com as pontas espigadas de vez?

Quem é que corta dois dedinhos ao cabelo e continua a ver pontas espigadas em todo o lado? E quem é que deseja ter coragem de quase rapar o cabelo, para que cresça todo de novo, lindo como só ele, voltando ao comprimento desejável em meia dúzia de dias, quem é? Eu! Sempre gostei mais de me ver com o cabelo comprido. Porém, o meu cabelo é fino e espiga com demasiada frequência. Se o estou sempre a cortar, não consigo que ganhe o comprimento que desejo. Se não o corto, anda sempre todo espigado. Enfim, há males maiores, mas isto enerva-me. Então apareceu o corte bordado: uma técnica de corte de cabelo com recurso a uma maquineta muito peculiar, que retira apenas as pontas duplas ao longo dos fios, sem comprometer o seu comprimento. Eu, que não sou de ver e não experimentar, decidi fazer o corte bordado.

O cabelo é lavado e é-lhe feita uma hidratação profunda. Depois de seco, passa-se a tal máquina especial, que retira quase a totalidade das tão inestéticas pontas. Eu fiquei absolutamente maravilhada com o resultado final, confesso. O meu cabelo, para além de ter ficado super brilhante, ficou com um ar muito mais saudável e leve. Agora, onde é que podem fazer este corte mega tendência? Eu digo-vos. A Michele, e todas as simpáticas pessoas que com ela colaboram, terão o maior gosto em revitalizar o vosso cabelo, dando-lhe uma nova vida. Na Michele Encke – Estética e Cabeleireiro, podem também usufruir de outros serviços como depilação a laser diodo ou cera, unhas de gel, gelinho, manicure e pedicure, entre outros. Daqui a uns dois ou três meses, lá estarei a fazer um novo corte bordado. Será também por essa altura que se avaliará se preciso ou não de um pequeno corte com a tesoura, no sentido de dar alguma forma ao cabelo ou fazer algum escadeado. Para já, vou apenas usufruir deste meu novo e reluzente cabelo, um bom pronúncio para 2017.

Três anos de Perna Fina

Passaram três anos desde que escrevi e publiquei o primeiro texto neste blogue. Passaram SÓ três anos, mas parece que passaram trinta. Como se eu me tivesse preparado toda a vida, para esta que agora vivo. Tal como ela é. Como se tudo o que passei antes, de bom, muito bom, mau e péssimo, tivesse sido o estágio para os dias de hoje.

Hoje eu sou mais feliz. Indiscutivelmente. Porque sou mais magra, é certo, mas, sobretudo, porque parei de estar em luta permanente com a minha cabeça e com o meu corpo. Quem já passou por isto sabe exatamente do que falo.

A Perna Fina deu-me a possibilidade de escrever e partilhar o processo de melhoramento que fui vivendo e, sem eu perceber muito bem como, de chegar mais perto doutros que passam pelo mesmo que eu, mostrando que é possível mudar. Mesmo com medo de falhar. Mesmo com avanços e recuos. Mesmo recomeçando tudo de novo, mais uma vez.

Nunca imaginei que isto durasse tanto tempo. Achei que, a par com tantas outras situações em que desisti na vida, o blogue acabaria por morrer. Houve quem me dissesse que isso aconteceria, mas aconteceu precisamente o contrário. Este blogue está mais vivo que nunca e eu não páro de ter ideias para o tornar cada vez maior, para fazer com que a minha história chegue a um maior número de pessoas, em especial àquelas que, por alguma razão, deixaram de acreditar em si e no seu potencial.

Obrigada a todos os que vêm aqui ler os meus devaneios, que comentam, que me escrevem. (Às vezes demoro a responder, mas acabo sempre por fazê-lo. Se não o fizer, insistam comigo, ok?) Obrigada à minha doutora Catarina, que me ajudou a mudar a minha relação com a comida e aos meus treinadores, que em todos os treinos me incentivam a tentar mais e a ser mais forte. Obrigada à minha família e aos meus amigos, que estão sempre comigo e que vibram, tanto quanto eu, com este meu estado de ser Perna Fina.

A Perna Fina é uma força interna, muito minha, que me ajudou a atingir muitos objetivos e a prova que somos capazes de quase tudo o que sonhamos. A Perna Fina sou eu. Hoje. Para sempre.




Serenidade

Nunca fui uma pessoa calma. Acho que nunca serei. Ultimamente, porém,  tenho-me sentido mais serena. Não completamente, mas em muitas situações. Em relação à comida, por exemplo, tenho-me sentido muito mais tranquila. Muitas vezes falei com a Dr.ª Catarina sobre ser muito ou pouco permissiva comigo, alimentarmente falando. Tenho-me esforçado por analisar com cuidado se esta serenidade é permissão. Acho que não tem sido. É só uma paz enorme por não me preocupar com o peso, com o facto de alguém me poder achar gorda ou se estou bem ou mal. É quase como se conseguisse sair de dentro de mim e me pudesse observar com a imparcialidade necessária para ser o mais cuidadosa que posso ser comigo própria, sem histerias, sem culpas, sem adições, sem precisar de motivações alheias. Só por me conhecer tão bem (ou cada vez melhor), por me sentir tão bem. Percebo que quem nunca se sentiu dependente do que (de quem) quer que seja não perceba esta sensação, mas não é para essas pessoas que escrevo isto (desculpem lá). Escrevo este texto para todos aqueles que, por alguma razão ou algum vício, estão em luta consigo, com o seu corpo, com os seus fantasmas. O meu vício era (será sempre!?) a comida. Aprender a lidar com isto tem sido um caminho tão duro, quanto compensador. Deixar de estar em luta comigo foi o melhor que me aconteceu. Foi a possibilidade de viver uma serenidade que espero não largar mais. Foi crescer. Muito.

Eu explico (ou tento, vá)!

Ontem republiquei este texto na página da Perna Fina, no facebook, a propósito dos devaneios em que nos metemos depois de alguns excessos. Já escrevi inúmeras vezes que não acredito em milagres. Milagres de espécie nenhuma, verdade seja dita, mas, porque muito me toca, acredito ainda menos em soluções milagrosas para perder peso. Perder peso não tem segredo nenhum: é preciso comer bem e treinar o que se pode, com afinco. É só isto. Não há nada a fazer que não isto mesmo. Dá trabalho? Se dá! Mas não há nada mais eficaz e duradouro. É rápido? Depende dos corpos, dos metabolismos. Nalguns casos demora mais tempo, noutros demora menos. Agora, em que é que eu tenho vindo a acreditar com muita fé: é preciso ser-se consistente, tranquilo e evitar os picos de fome/comida em excesso. Eu explico (ou tento, vá)! Antigamente eu vivia assim: comia muito, não comia nada. Engordava muito, emagrecia muito. O meu corpo não sabia muito bem com o que contar. Imagino o que aconteceria se tivesse um pensamento autónomo, independente de mim: será que hoje esta tipa me vai dar combustível? Ou será que vou passar o dia a ir às reservas? O que quero dizer é que é contranatura comer muito e depois, logo a seguir, não comer nada ou o contrário. Talvez o corpo reaja, mas tenho dúvidas que práticas destas lhe traga muitos benefícios. Até percebo que se queira fazer alguma contenção depois de dias de festa, eu ando a esforçar-me por isso, mas calma com os detox da vida. Comer o melhor possível e mexer o rabo é mais do que suficiente para a coisa se voltar a equilibrar. Pudesse eu transmitir em palavras a serenidade que sinto dentro de mim por, finalmente, pensar assim. Mas sobre serenidade escreverei outro texto.

Pronto, foi ótimo…

…mas acabou! Felizmente, que eu não aguento mais. O Natal é partilha, amor e bla bla bla. É tudo isso, eu sei, mas é também enfardar que nem uma besta. Na minha casa é e eu não posso lutar contra esse facto. Por isso, confesso, estou desejosa para que isto acabe. Não suporto mais um bombom, mais um novelo de fios de ovos, mais um sonho, mais uma gamba. Não dá mais. Tenho comida até aos olhos, a sair pelos poros. Estou aqui toda inchada, com uma barriga como há muito não tinha. Deus ma livre! Amanhã é dia 26 e volta tudo ao normal. Já pus os restos no congelador e arrumei os bombons numa prateleira alta, para não me dar ao trabalho de os ir buscar mais. Também não ia conseguir, só se fosse a rebolar, tipo lontra, a fazer aqueles sons anasalados. Ai, Jesus, o teu aniversário dá cabo de mim!