Ser livre

Escrevo muitas vezes sobre ser livre de mim. Sobre poder viver sem estar presa a coisas, a pessoas, a situações. Fui exemplar este ano inteiro. E-XEM-PLAR. Comi sempre bem, treinei muito, fiquei na minha melhor forma física de sempre. Sempre a trabalhar bastante, a organizar o meu tempo, a correr de um lado para o outro. Podia ter decidido continuar este registo nas férias. Podia, mas não o fiz. Quer dizer, não perdi a cabeça, mas fui muito mais flexível comigo. Acho que engordei. Não sei quanto, mas hei-de saber, mais dia menos dia. Ou não, porque isso já não é mesmo o que mais me interessa! Interessa-me ter a certeza que o fim das férias, significa o fim desta vida de maior libertinagem. O regresso ao trabalho, que está para muito breve, é sinónimo de mais treino, de marmitas, de água bebida na quantidade certa, de horários. Não vou entrar de dieta, vou apenas voltar, o mais depressa possível, àquilo que é a minha alimentação de todos os dias, sem as exceções que abri durante este mês. Porque a liberdade é isto: tomar decisões, viver com as consequências, acertar novas decisões. E está tudo bem!

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O 31.° ano da minha vida foi o ano mais importante de sempre: arrumei assuntos que estavam desarrumados há anos. Nem um, nem dois, vários. Os meus alunos aprenderam muitas coisas e foram felizes. Os meus amigos continuaram por perto. Este blogue cresceu como nunca. A minha família esteve bem. Eu cheguei à minha melhor forma física de sempre. A fasquia está muito alta, mas a minha ambição é maior que isso. Só posso agradecer tudo o que tenho, porque sou uma sortuda sem medida. Eu acredito que a vida se organiza por ciclos e sei que hoje começou um novo para mim. Sinto-o. Obrigada por todas as mensagens tão queridas. De coração. Que esta Perna Fina continue a ser esperança para todos aqueles que querem mudar, mesmo que ainda não saibam como.

Des-na-tu-ra-da

Sou uma desnaturada, eu sei. Tenho deixado este barraco ao abandono e ontem, quando a minha mãe me disse que não escrevia desde dia não sei quantos, senti-me péssima. Eu não estou morta para a vida, estou super ativa no Instagram e no YouTube (e nas férias, também!). Essa é que tem sido a questão: é que tive um ano de trabalho de bradar aos céus e precisei mesmo desta pausa. Porque escrever implica mais atenção do que publicar apenas uma foto, não é verdade?! Mas não se aflijam, que eu não estive só a descansar. Estas férias foram muito produtivas a muitos níveis, Perna Finamente falando também. As novidades não vão tardar e são melhores que boas. Assim que puder, conto tudo, tudo. Por enquanto, vou aproveitar esta última semana da melhor forma que posso e finalizar este bronze que está bem fixe.

Quantos quilos perdi?

Eu fui gorda, mas também fui muitas vezes magra. Fazia dieta atrás de dieta, perdia peso e engordava tudo outra vez (ou mais). Tenho memória de me ter posto em cima de uma balança, há mais de 6 anos e de ter mais de 80kg. 81 e picos. Desde que comecei a Perna Fina, já tive vários pesos: lembro-me de celebrar os 72, os 68, de ter ficado muito tempo parada nos 64, de ter chegado aos 61 e de me sentir incrível. O peso mínimo que tive foi de 57 quilos, por isso, de forma arredondada, digo que perdi 25 quilos.

Eu já peguei num peso de 25 quilos e é qualquer coisa de muito pesada. É impressionante! Perdi muita, muita chicha, é certo, mas mais do que isso: eu transformei o meu corpo. Neste momento, tenho a composição física de um pessoa dita atleta, o que me deixa muito, muito, feliz. Tenho um IMC de 21 kg/m2, nível 1 de gordura visceral (o valor mínimo de gordura ao redor dos órgãos) e muito mais de metade do meu peso é músculo. A minha idade metabólica é de 16 anos, o que é metade da minha idade real. Tenho 58 quilos.

Eu perdi muito peso, é verdade, mas a mudança que fiz no meu corpo já está muito além de um emagrecimento. Está numa profunda alteração de estilo de vida, de perspetiva do que é ser saudável. E feliz (comigo e com os outros).

Para pensar…

Não foi uma refeição, nem um treino, que me deu este corpo que tenho hoje. Foram muitas refeições boas, e muitos treinos bons, que me fizeram chegar aqui. Por isso, não será uma refeição, nem uma falta num treino, que me tirará esta conquista. Serão muitas refeições más, e muitas faltas aos treinos. Isto para dizer que o que nos emagrece, ou engorda, é o que fazemos como rotina. Nunca as exceções. Se nos apetece muito uma piza, devemos comê-la. Sobretudo se estivermos com amigos e família, numa festa, num jantar, em convívio. Os outros momentos, os mais solitários, os de todos os dias, talvez devam ser levados como rotina. E tudo correrá bem. Tudo.

Nenhum alimento emagrece!

Eu sei que a propaganda alimentar nos quer fazer acreditar nisso, que saem estudos e teorias e cenas todos os dias, mas deixem-me desenganar-vos: nenhum alimento emagrece. Nenhum! Nenhum tem calorias negativas! Nenhum nos vai fazer perder peso. Há alimentos bons, nutricionalmente equilibrados, que podem potenciar a perda de peso, por terem mais ou menos valor calórico. Mas por si só, nenhum, volto a frisar, nenhum alimento emagrece. Nem os brócolos, nem a alface, nem os ovos, nem o abacate, nem nada. O que emagrece é comer alimentos equilibrados, que todos, melhor ou pior, sabemos quais são e treinar. Estou sempre a escrever isto, mas não me canso: não há fórmulas mágicas, não há mais roda nenhuma para inventar. Só calorias a entrar e a sair. E a persistência. Chiça, que canseira.

Ninguém é melhor do que ninguém, esquece isso!

Esta altura do ano é particularmente difícil, não é? Tens o Instagram, o Facebook e as revistas cheias de imagens de miúdas em biquíni, a exibirem a sua boa forma, e a lembrar-te que, passado um ano, ainda não te consegues sentir bem contigo. Como é que passou um ano, como? Como é que passou mais um ano em que não cuidaste de ti? Em que voltaste a desistir da dieta? Em que voltaste a cancelar a mensalidade do ginásio? Como? Por que é que voltou a não funcionar? O que é que correu mal?

São estas as dúvidas que pairam na tua cabeça, não são? São as imagens das atrizes, das apresentadoras e das cantoras, de barrigas e pernas perfeitas que te fazem odiar-te um pouco mais, não é? Eu sei. Parece que o mundo é todo delas. Parece que nada lhe é negado… Sabes? O problema não está nelas. Nunca esteve. Está em ti, em nós, que não nos levamos a sério o suficiente para nos cuidarmos a sério e de um vez por todas. E nem vale a pena começarmos a encontrar desculpas para não sermos como as Cláudias Vieiras da vida.

Ah, porque elas têm acesso a todas as dietas que quiserem! Ah, porque elas têm os treinadores todos que quiserem! Ah, porque elas têm os tratamentos todos que quiserem! No final, elas têm isso tudo, verdade, mas têm também a força de vontade necessária para continuar a tratar do abono que a vida lhes deu. Porque, ei, não nos deixemos enganar, elas também têm acesso a todos os restaurantes e festas que quiserem, onde abunda a comida boa e a diversão e, ainda assim, escolhem tratar de si. Ninguém é melhor do que ninguém, esquece isso. Esqueçamos isso!

Em último plano, isto é sempre uma decisão unilateral, de mim para mim, de ti para ti. Não se trata de alguém ser melhor que nós ou ser mais bem tratada por ter acesso a mais coisas, o que pode ser uma realidade. Trata-se de um comprometido muito pessoal, muito difícil. Mas que vale mais a pena que todas as bolas de berlim do mundo.

Aceitação

Posso escrever todos os dias sobre o quanto a minha vida mudou nos últimos anos. Posso e devo, para inspirar outros e para me certificar comigo mesma que é real. Uma vez vi uma reportagem com um homem que tinha perdido quase 100 quilos. Era outra pessoa, quase irreconhecível. Dizia ele que o corpo tinha ficado magro, mas a cabeça não. Que frequentemente se desviava de objetos com a distância maior do que então necessitava, pois o seu pensamento era sempre o de não caber ali. Contava também que tinha de levar vários tamanhos de roupa para o provador, pois era muito difícil, de forma consciente, aceitar que vestia menos 10 números do que alguma vez vestiu. Vi aquela reportagem quando ainda não tinha perdido peso e, por isso, não compreendi o que dizia. Hoje percebo perfeitamente. Se vos disser que é com dificuldade que me reconheço em fotografias como esta, acreditam? Acreditem. Ainda dou por mim a ajeitar as calças, para não se ver a banha que já cá não está. Ainda dou por mim a cruzar os braços para esconder as mamas que entretanto foram à vida delas. Ainda dou por mim a duvidar que mudei. Ninguém nos prepara para isto. Para viver num corpo diferente daquele que tivemos durante muitos anos. É todo um processo de autoaceitação e de cuidado muito próprio. É bom, mas dá trabalho e não é sempre linear. A minha esperança é que este texto cause estranheza a quem quer mudar, como eu queria quando vi aquela reportagem. E que, um dia, possam sentir isto, que mesmo sendo estranho, é indescritível.

Deus me Livre do Pilates!

Eu sou uma pessoa tensa, eu sei! A este ritmo não chego a velha, mas não sei ser de outra maneira. Eu gosto de coisas (e pessoas!?) intensas, com vida, com ritmo, com ação. Eu sou assim. Sei que às vezes sou cansativa para os que estão à minha volta e tento refriar-me um pouco, mas há pouco a fazer.

Como treino muito e intensamente, estou sempre toda empenada. Não são lesões, são músculos que se contraem mais do que devem, que precisam de ser frequentemente alongados… E eu tenho pouco paciência para estar naquelas poses, tempos intermináveis a esticar-me toda, apesar de entender a necessidade.

A minha osteopata está sempre a dizer que tenho de me alongar mais, que o meu ritmo de treino assim o exige e que o Pilates me havia de fazer bem. Eu, que não sou de dizer que não a cenas que podem ser boas para mim, lá fui. Para começar, as pessoas já se conheciam todas, não é? Noutros tempos, não conhecer ninguém ia abanar-me, hoje foi só chato.

Bom, vi que estava toda a gente de chinelos, logo a aula devia ser de pé ao léu, e eu de ténis. Pensei: merda, terei os pés em condições?! Tinha. Depois a cena de ir buscar o tapete, pôr a toalha, tudo ordenado, menos eu. Nada novo também. A instrutora, uma simpatia, perguntou quem estava ali pela primeira vez. Lá tive de levantar o braço, não é?

E aquilo começou. Espreguiça dali, espreguiça daqui, a um ritmo que até a minha avó Perna Fina acompanharia. Alonga a lombar, alonga os ombros, alonga o pescoço, alonga tudo, raios me partam. Às tantas, ela fala em peso morto e eu pensei: ah, boa, aqui vou dar cartas. Esqueçam: era um deadlift para budistas! Que seca de gente e de aula!

Lá para o meio, deitada de costas a fazer não sei o quê, caguei naquilo tudo e baixei as pernas. A professora, amorosa, veio perguntar-me se me estava a sentir bem. Eu quis responder: eu estava melhor a fazer burpees, agora imagine o quão entediada estou! Mas só disse que sim e agradeci a preocupação.

Assim que aquilo acabou dei o pisga, não fosse preciso um abracinho amigável e coletivo, com toda a gente descalça, e eu que odeio pés, não ia aguentar tanta proximidade. O que há para reter nisto? Eu tentei. Eu tentei, mas a vida zen não é para mim. Eu sou uma besta, estão a ver? De atirar com pesos e dar socos. É isso.