Categoria: Diário

Eles andam aí…

Eles: os dias bons. Eles andam aí e eu, quando os vejo a chegar, fico sempre um pouco receosa. Não tanto como já fiquei há uns anos, mas, ainda assim, sinto sempre aquela pressãozinha de ter de usar menos roupa. Ora, porque usar menos roupa implica todo um braço, toda uma perna, todo um peito mais à mostra, salvo seja. Eles, os dias bons, são mais exigentes nesse sentido. Porque os dias de inverno pedem um camisolão ou dois e, de uma maneira ou de outra, lá conseguimos esconder a quantidade de carne armazenada. A partir de agora isso começa a deixar de ser possível, o que é uma chatice. Portanto, meus amigos, quanto a vós não sei, mas esta Perna Fina que vos escreve já decidiu que aqueles chocolatinhos a meio da semana acabaram. Os chocolatinhos, as entradinhas, uma bolachinha aqui e ali. Finito. The end. Acabou. Eles andam aí, eu já os topei, e nem pensei que não estarei preparada, em bom, para os receber.

[como já estive um dia.]

Eu gostava…

Eu gostava de ser uma daquelas pessoas que come um croissant de doce de ovos de manhãzinha, só para acordar.

Eu gostava de ser uma daquelas pessoas que se dá ao luxo comer um Kit Kat a meio da manhã, a acompanhar o café, assim como snack.

Eu gostava de ser uma daquelas pessoas que come batatas fritas na maioria das refeições, sem olhar para os brócolos cozidos.

Eu gostava de ser uma daquelas pessoas que come sempre um bolo a seguir ao almoço, só para ficar mais aconchegadinha.

Eu gostava de ser uma daquelas pessoas que lancha um pacote de bolachas, daquelas tipo americanas com pepitas de chocolate.

Eu gostava de ser uma daquelas pessoas que janta sempre grandes pratos de arroz, com o peixe ou com a carne.

Eu gostava, mas não sou. Porque se o fizer sei qual vai ser o meu destino. E as pessoas que o fazem, que destino terão?

Está tudo acabado entre nós!

Os dias em Barcelona têm sido uma pouca vergonha. Tenho encontrado bastantes opções saudáveis, mas volta e meia e lá estou eu a dar-lhe nas pizas, nas tapas, nos tacos. Acho que, depois disto, não há razões para continuar. Está tudo acabado entre nós, queridos Pernas Finas. Ora ponham lá os olhos nisto:





Estou a brincar, meus pequeninos. Não está nada tudo acabado. Mas se me virem na rua e eu vos parecer uma pequena orca, não achem que estão enganados: serei mesmo eu.

Mamas


Vamos falar de mamas? Das minhas mamas? Vamos lá. No 5.º ano eu e as minhas amigas fomos para a casa de banho ver os carocinhos umas das outras. Naquela altura os meus eram os mais pequenos, mas depois puff: de um ano para o outro cresceram-me uns autênticos melões.

Apresentação do primeiro dia do 8.° ano e eu de blusa justa, sem me ter apercebido que tinha uns enormes seios. Os rapazes da minha turma fizeram-me perceber depressa que o meu corpo tinha mudado e mostraram-se visivelmente agradados com tal facto. Já eu, senti vergonha do meu corpo pela primeira vez. Fogo, quem me dera ter umas mamas como as tuas, diziam-me outras miúdas.

Não sabiam o que diziam. O meu peito cresceu muito e muito depressa. Era muito pesado e partiu, como um peito de uma senhora idosa. Só que eu tinha 14 anos, não 140! Este foi o meu maior complexo de sempre. Era difícil comprar sutiãs minimamente jovens, que me amparassem bem o peito. Biquínis, então, era praticamente impossível. De qualquer pedaço de tecido saía mama.

À medida que os anos, e os verões, iam passando eu odiava mais as minhas mamas e, um dia, prometi a mim mesma que o meu primeiro ano de ordenados serviria para fazer uma redução mamária. Assim foi: no final do meu primeiro ano de trabalho como professora, aos 23 anos, fiz a operação.

O dia 1 de julho foi um dos dias mais felizes da minha vida. Eu chorei de emoção quando me vi ao espelho pela primeira vez. As mamas estavam negras e inchadas, mas eu emocionei-me à mesma. Tinha mais comprimento de barriga, tinha outra postura. A partir daí, foi todo um novo mundo.

Pude começar a usar blusas sem alças, transparências, vestidos de alças finas, biquínis. Todos os anos faço exames para perceber se está tudo bem com as minhas meninas. Foi uma operação muito séria, que exigiu uma série de procedimentos muito sérios também. As cicatrizes mal se vêem e quem não me conheceu antes não diz que já tive umas maminhas até ao umbigo.

Costumo dizer que estes milhares de euros, foram das quantias mais bem gastas da minha vida. Nunca, nunca me arrependi desta decisão que tomei. Já estive muito gorda, muito magra, média e elas cá continuam, lindas e direitas como só elas. Quem me operou garantiu: nem que amamente 50 crianças, isto não sai mais daqui. São casos como o meu que dão força e importância à cirurgia plástica consciente e bem feita.

#mudaporti


Nunca passou pela cabeça desta miúda de 16 anos, que um dia veria a sua imagem numa foto assim:

Nunca, nunca na vida. Mas aconteceu. E é uma alegria que vem de dentro para fora, que contagia, que me faz querer ser melhor todos os dias. Aquela miúda de 16 nunca acreditou, mas esta mulher de 30 provou-lhe que estava redonda(mente) enganada.

Vergonha de comer

Eu tinha vergonha de comer em público. Foi uma coisa que fui desenvolvendo à medida que as dietas que ia fazendo iam falhando. Era como se estivesse aos olhos de todos que tinha fracassado mais uma vez. Como se olhassem para mim com olhos de juiz. Era o que eu sentia. Por isso, a certa altura, começou a ser muito desconfortável comer à frente de outras pessoas, que não fossem as da minha família. Acho que foi aí que os episódios de compulsão começaram a acontecer, uma e outra vez. Comia muito. Comia sozinha. Comia sem o mundo ver. Comigo. Era impensável, por exemplo, eu passear-me num centro comercial com um gelado na mão. Impensável. O que é que os outros iam acham de mim? Que era uma gorda a querer ficar mais gorda ainda? Todas estas minhas preocupações ocas caíam por terra quando em casa comia meia caixa de gelado, não é verdade? Afinal, não estava ninguém a julgar-me, que mal tinha? Eu sou uma pessoa observadora. Ultimamente, tenho dado por mim a reparar, discretamente, em pessoas com excesso de peso e já por uma vez ou outra vi comportamentos muito semelhantes aos que eu tinha: esconder no bolso ou na mala o chocolate que se acabou de comprar, sentar-se num sítio isolado a comer um Menu Big Mac, recusar qualquer coisa, enquanto os olhos brilham de vontade de devorar a oferta. Eu já fui assim. Acho até que ainda sou um bocadinho… Agora, o que eu tenho aprendido é que interessa muito menos o que comemos em público, do que o que comemos sozinhos. Não que em público possamos comer meio porco, nada disso, mas então que também não o façamos sozinhos. Ninguém devia ter vergonha de ser visto a comer, mas acontece mais do que se pode imaginar. E dói. E devia preocupar mais gente do que preocupa. A sério.

O amor

Procuro, entre outras coisas, que os meus alunos sejam pessoas gentis, amáveis e que respeitem o outro. Ontem pedi-lhes que escrevessem sobre o amor. Hoje juntámos algumas ideias e chegámos a este texto. Eles iam dizendo e eu ia escrevendo. Isto é o amor, pelos olhos de miúdos de 6 anos.

O amor é uma coisa que se sente, mas não se pode ver. Podemos sentir amor quando estamos ou pensamos em alguém que gostamos. Há várias espécies de amor: o amor da família, o amor dos amigos, o amor dos animais, dos namorados ou entre mulheres e maridos. O amor não tem regras, tem só alguns cuidados. Quem ama respeita, trata bem, ajuda, ouve, compreende e diz a verdade. O amor acontece sempre que os corações se juntam e batem quase ao mesmo tempo.

E não era tão bom que fosse sempre assim?

Bravo!


Ontem vi este anúncio por acaso e fiquei comovida. Às vezes as famílias, mesmo sem terem essa intenção, ajudam muito pouco em processos de perda de peso. Continuam a trazer para casa as bolachas, os refrigerantes, as pizas congeladas e tudo o que sempre se habituaram a comer. E comem, mesmo à frente de quem está a tentar mudar. Eu passei por isto milhares de vezes. Nem sempre as minhas opções foram respeitadas, fui frequentemente tentada ou criticada por não querer comer isto ou aquilo. Cedi muitas vezes, recusei outras tantas. Não tenho dúvidas que isso atrasou este meu processo de mudança. Foi o que foi, o que tinha de ser. Serve isto para dizer que os familiares, e as pessoas mais próximas, são fundamentais na definição de novos hábitos de saúde. O que era mesmo espetacular, era que vissem o esforço daquele membro da família como um esforço de todos, podendo, assim, toda a família ficar mais saudável. É claro que o empenho maior é de quem precisa mesmo de mudar, mas se à sua volta não andarem a pairar tabletes de chocolate, está meio caminho andado para o sucesso. Acreditem em mim.

Bravo, Pingo Doce.

Pois claro!

Isto aconteceu a semana passada e na altura eu pensei: olha que estuporzinho machista, ãh, mas depois recalquei. Hoje voltei a pensar nisso e percebi porquê. Eis o que se passou. Estava eu e uma amiga a jantar numa cervejaria, quando aparece o empregado a quem dizemos: não queremos as entradas, a francesinha é suficiente obrigada. Ele, a rir-se, disse: meninas, meninas, olhem que nós homens gostamos de vocês assim rechonchudinhas. Lembro-me de ter respondido qualquer coisa como: eu estou a borrifar-me para os homens, eu quero é ver-me ao espelho e estar impecável. O empregado riu-se de novo, como quem disse: deve ser deve, o que vos preocupa mesmo é saber se aprovamos ou não. Pois eu calculo que o rapaz não leia a Perna Fina, mas é uma pena, porque gostava que lesse isto que passo a escrever: fofinho, nem tudo o que fazemos é para vos agradar, provocar, entusiasmar. Nem tudo, ok? Algumas de nós, no que dependesse de mim seríamos todas assim, estamos verdadeiramente importadas connosco e com o nosso bem-estar. Só depois interessam as opiniões alheias. O que acham ou deixam de achar, pode ser um feliz bónus ou não. Simples assim. Apesar de acharem que o nosso mundo só gira porque a vossa espécie o permite, não é bem assim. Não é mesmo. Por isso, pequerrucho, nós não comemos as entradas porque não queremos. Tal como as comeríamos se quiséssemos. É tudo uma questão de apetite, aliada ao bom senso e à auto-estima. Só isso, entendes? Talvez não, mas ficamos assim.