Categoria: Diário

Colo

Escrevo, e sempre escreverei, com a intenção de ser esperança. Esperança a quem passa por tudo o que eu passei e por isso sei o que custa. A minha voz também é vossa. O que nunca esconderei é que nem todos os dias são fáceis. Fácil é vestir uma roupa gira e tirar uma fotografia num espelho. Fácil é ler as mensagens que me mandam todos os dias, que me alimentam o ego (obrigada). Isso é fácil. Já esta decisão, a ser permanente tal como a desejo, tem dias bons, em que me sinto a maior, e tem outros dias de extremo cansaço, de desmotivação, de quase exaustão. E nesses dias, sabem o que me salva? Estar rodeada das pessoas certas. Aquelas que escolhi, e escolho todos os dias, para estarem ao meu lado. Porque no fim de contas, por muito forte que eu seja, por muito ambiciosa que me apresente, como todos, também preciso de colo. É o colo ponderado que nos embala. Sempre. Esta não sou eu a desistir de nada. Esta sou eu a sair de dias menos bons, a tornar o difícil mais fácil. A tentar ser feliz (durante a maior parte do tempo).

É possível engordar, comendo apenas comida saudável?

Os processos de emagrecimento parecem estar sempre a ser reinventados. A todo o segundo aparece uma dieta mais eficaz, um alimento promissor, um processo milagroso. São como cogumelos. Venenosos. Porque, só há uma maneira de emagrecer: gastando mais calorias do que aquelas que se consomem ou consumindo menos calorias do que aquelas que se gastam. O que se vai fazendo pelo meio pode funcionar com a Tia Joaquina e não resultar com a Prima Amélia e vice-versa. Isto é uma daquelas verdades inabaláveis.

Agora, claro que há uma série de princípios que são do senso comum: os doces, os fritos, os processados, não dão saúde a ninguém. Porém, a vaga da alimentação saudável traz consigo alguns equívocos, que podem ser prejudiciais a uma perda de peso sustentada e eficaz (não rápida!). Vou dar alguns exemplos: o abacate anda nas bocas do mundo. É uma gordura saudável e veio deitar por terra que as gorduras são inimigas da perda de peso. Aceite. No entanto, eu garanto, se comerem tostas de abacate de manhã à noite, talvez não emagreçam assim tanto como desejam.

Quem diz abacate diz frutos secos. Mesmo os que são ao natural. Os frutos secos são uma bomba calórica. Devemos consumi-los, sim, mas com conta, peso e medida. Basta procurarem no Google e verão inúmeras tabelas que mostram as quantidades diárias sugeridas de cada tipo de fruto. O mesmo se passa com a fruta. Sim, a fruta é saudável e tem montes de nutrientes bons, mas para quem quer perder peso, uma peça de fruta por dia é mais do que suficiente. A fruta é açúcar! Estes são apenas alguns exemplos de alimentos que nos podem levar ao engano.

Depois há o flagelo dos light, diet e zero. Já escrevi um texto sobre isto. Estes produtos são criados para serem comprados e para darem lucro, não para nos darem saúde. Por isso, não vão nas histórias das bolachas não sei quê, nem das granolas não sei quantas. Isso é tudo marketing. Neste sentido, ler os rótulos é fundamental. Quanto menos ingredientes tiver um pacote de qualquer cena, melhor. Muito melhor.

E assim de repente, parece-me ser isto. É possível engordar, comendo apenas comida saudável? É. Eu sei que esta minha questão levanta ainda mais dúvidas e deixa as pessoas ainda mais perdidas, mas julgo que, juntos, podemos começar este caminho. O mais importante é termos alguma noção do valor calórico daquilo que comemos e mexermos o bumbum. No fundo, interessa assegurar que gastamos mais do que ingerimos. Esse é o único milagre do emagrecimento. Quem disser o contrário disto, estará a mentir para vos tentar vender alguma coisa. Olhos abertos, minha gente, olhos abertos.

Conseguimos fazer isto sozinhos?

Outra das perguntas que me fazem regularmente, é que tipo de apoio técnico tive para perder o peso todo que perdi. Ao longo da minha vida, e pensando em todas as dietas que fiz, fui conhecendo nutricionistas que me foram passando planos alimentares variados. Regra geral, com todos esses planos eu perdi peso. Porém, embarquei sempre em dietas muito restritivas e, por isso, assim que parava a dieta, engordava tudo outra vez ou mais ainda.

Aos 28 anos conheci a doutora Catarina, a quem sou profundamente grata. A sua página de Facebook anunciava como especialidade o Comportamento Alimentar e eu achei que era isso que precisava de mudar: o meu comportamento perante a comida. A primeira consulta foi duríssima. Pela primeira vez eu contei a alguém o que fazia, como comer enormes quantidades de comida às escondidas e chorei de vergonha.

No início, estas consultas eram semanais e, para além de se ir ajustando o plano alimentar, ia também falando com a doutora sobre o que tinha comido e em que situações. Aos poucos, fomos encontrando um padrão na minha fome: eu comia sempre que estava mais cansada ou me sentia a explodir por alguma razão. Fomos analisando estas questões, eu fui perdendo peso. Este processo começou há quatro anos.

Para além da doutora Catarina, para a alimentação, tive a sorte de entrar numa box de Crossfit – a Crossfit Restelo – que me acolheu de forma irrepreensível. Nunca vi nos olhos de nenhum dos treinadores os olhos que já tinha visto um dia nos ginásios que tinha frequentado. Olharam para mim, reconheceram o meu esforço e ajudaram-me a tornar-me na atleta que sou hoje. O Luís, sobretudo, por ser o treinador que mais se dedicou a esta causa, foi determinante.

Conseguimos fazer isto sozinhos? Eu não teria conseguido, julgo eu. Porque há momentos em que só nos apetece mandar tudo às urtigas e voltar a comer este mundo e o outro. Por isso, estas pessoas foram determinantes para este processo todo e eu sou-lhe eternamente grata. Serve este texto para reforçar que existem bons e maus profissionais em todo lado e grande parte da qualidade deles prende-se, também, com a empatia que criamos ou não.

É fundamental que acreditemos e cumpramos aquilo que nos sugerem, porque essa é a sua especialidade. Para quê inventar? Eu tentei muitas vezes sozinha e fracassei sempre, mas acredito que haja histórias de sucesso diferentes da minha. Mas eu só posso escrever sobre o que me toca e o que me toca é isto: tornamo-nos melhores, quando nos rodeamos dos melhores. E para mim, estes foram os melhores do mundo.

#mudaporti

Tirei esta fotografia há umas semanas. Tinha um dia de praia combinado com amigas e levantei-me mais cedo para treinar em casa. Em casa tenho um elástico, um peso e uma corda. Dá para fazer uma quantidade gigante de exercícios com este pouco material. Mas bom, o que interessa aqui não é isso: o que importa é que esta fotografia mostra um corpo que eu nunca imaginei como meu. Só em sonhos. A barriga, sobretudo! Por causa da barriga que tinha, passei anos sem ir à praia, privei-me de usar o umbigo de fora, quando todas as miúdas o faziam, tive a alcunha de Pote de Banhas… Por tudo isto, e por tantos mais desgostos e inibições que vivi, eu morro de orgulho destes abdominais. São muito mais do que se vê. São a prova mais que provada, a mim mesma, que eu consigo tudo o que quero (e depende de mim). São a materialização da força de vontade que eu tenho. E deste empenho doido, que chega para mim e para mais meio mundo.

Às vezes…

Às vezes tenho medo de ser feliz. Tenho medo desta paz que me invade o corpo, dos pés à cabeça. Às vezes, lamento esta felicidade. Como se não a merecesse. Como se nunca a tivesse desejado. Às vezes, sinto receio. Receio que chegue um vendaval e destrua isto tudo. Esta alegria que tenho e que, dizem, é contagiante. Eu rio com os olhos, com a boca. Eu rio por fora. Rio ainda mais por dentro. Se a minha vida é perfeita? Não. Se eu gostava que este momento durasse para sempre? Amava. Por isso, nada mais me resta que não usufruir. Gozar todo o meu esforço, todo o meu trabalho, tantas as minhas lágrimas. Resta isso, que chega e dá para vender. Talvez até abra uma banca, com o slogan: Vende-se Alegria! Talvez seja um sucesso. Ou não. Será que as pessoas querem realmente ser felizes? Será? Talvez também tenham esse medo, como eu. Mas só às vezes. Noutras, permito-me SÓ a ser tudo o que sempre desejei.

É a única coisa que invejo!

A única coisa que eu invejo verdadeiramente em alguém, é essa pessoa poder comer tudo sem engordar. Eu já escrevi que gosto muito da comida que como hoje em dia, que não vivo em sacrifício, mas a minha vida não é um regabofe alimentar. Nada disso. Apesar de tentar controlar os meus sentimentos em relação à comida, tenho sempre aquela sensação de perceber se o que estou a comer é uma boa opção ou não. Porque a verdade é só uma: ou sou regrada ou chapéu. Por isso eu gostava de saber como é comer sem se preocupar com os efeitos que essa ação terá. Um bocadinho como as pessoas que compram as coisas que querem sem olhar para a etiqueta do preço (essa sorte eu também não tenho). Eu nunca vou conhecer essa sensação, porque nós somos sempre (também) a nossa história. Só me resta acreditar que há desvantagens em poder comer tudo o que se quer, que assim estou a cuidar mais de mim e blá, blá, blá. Isso tudo. Isso e uma petição para que essas pessoas ardam no inferno.

Não temos sempre de ir ao nosso limite!

Às vezes sentimo-nos na obrigação de ir sempre até ao limite. Eu sou muito assim: quero sempre conseguir mais e melhor de mim própria. E esse pode ser um risco perigoso de pisar. Porque às vezes, o limite é o cansaço e a exaustão. No trabalho, no treino, na vida. 

As últimas semanas foram loucas, por isso, este fim de semana decidi parar e passar as horas na praia com amigas. Foi o melhor que fiz: mergulhar, apanhar sol, dizer disparates, comer comida boa, de saborosa, mesmo que não entre no plano assim à partida.

Porque sabermos parar é sabermos ser amigos de nós mesmos. É perceber que somos humanos, que nos cansamos e que precisamos de descansar, como qualquer pessoa. Não é sinal de fraqueza, nem de desleixo. É sinal de que se é humano, de que se vive e não se sobrevive, o que é completamente diferente.

Ir ao limite todos os dias é parvo. Pessoalmente, sinto muito isso no treino. Todos os dias vejo gente a querer ultrapassar o seu último recorde de peso ou o de outra pessoa. Ou a querer fazer mais rondas, ou a querer ser mais rápido. Eu sou muito competitiva e jogo sempre para ganhar, mas há dias em que não consigo mais.

Nesses dias o empenho é o mesmo, mas não me obrigo a bater nenhuma pontuação e faço as coisas mais devagar ou com menos peso. Não deixo de fazer, mas não me obrigo a cair para o lado. O mesmo acontece nos eventos sociais, por exemplo. Saber dizer que não, que quero ficar em casa, que preciso de descansar… É necessário.

Ir ao limite, de vez em quando, sair da zona de conforto e sentir que nos estamos a superar, alimenta-nos o ego e faz-nos crescer. Mas nem sempre, nem nunca. Porque ninguém aguenta, nem tem de aguentar, viver sempre a 300%. Não há necessidade. Faz mal. Envelhece. Não é parar. É saber desacelerar.

WOD de Santo António

Santo António, Santo Antoninho,
Não aches que por ser o teu dia, eu descanso.
Estou pronta, sem vacilar,
Em direção a mais um wodzinho.

Wodzinho? Não. Wodzão!
Que este corpinho não quer saber se é feriado ou deixa de ser.
Agachar é sempre preciso,
Porque esta bunda tem de continuar a crescer.

Por isso, Santo António querido,
Não aches que ando aqui a brincar.
Mesmo que nunca tenhas sido meu amigo,
Eu não paro de me esforçar.

Um dia, quem sabe, olhes para mim com outros olhos.
Olhes e digas: que rica moça ali está.
Vou acelerar-lhe a chegada do príncipe
E casá-la já.

Passar de um extremo ao outro!

O maior perigo que eu podia correr neste momento, não era engordar tudo outra vez. Isso seria uma tragédia, mas eu iria parar a um lugar conhecido, de onde saberia sair, mesmo que me custasse muito. A maior desgraça que me podia acontecer, seria passar para o lado oposto daquele em que vivi. Sim, é disso mesmo que estou a falar. De distúrbios alimentares contrários à compulsão alimentar. O pior que me podia acontecer era querer deixar de comer, para ficar cada vez mais magra, como se a minha magreza nunca fosse suficiente. Eu tenho pensado muito sobre este tema. Porquê? Porque isto é aliciante. Ser magra sempre foi o que quis. As pessoas que me querem bem já tocaram neste assunto. Porque têm medo que não saiba parar. Porque têm receio que o meu entusiasmo me tolde o discernimento e a razão. Por mim eu fazia pause agora. Ficava assim como estou até ao fim dos meus dias. Nem mais, nem menos. Magra ou gorda. Forte ou fraca. Definida ou mole. Ficava assim. Como não há esse botão nas opções, só me resta seguir e dançar ao som deste play, sabendo que se o meu estilo de vida não se alterar, no que a alimentação e treino diz respeito, continuarei a estar como estou. E está ótimo assim.

Inspira (e não pira)!

A palavra que mais devo ler nas mensagens que recebo, vindas de quem me lê, é inspiração. Escrevem-me mesmo muitas pessoas a dizer isto: que se revêem na minha história, que se inspiram em mim e na minha força e que o meu sucesso, seja lá ele qual for, as faz querer mudar também, porque é como se vissem que é mesmo possível atingir o que parece irreal. Eu confesso, fico muito enternecida com estas palavras, porque sinto que esta exposição toda a que me permito pode mesmo ajudar alguém. Nos meus tempos péssimos, de mau estar interior, eu teria gostado muito de ler alguém que escrevesse o que eu escrevo. Por isso, percebo a importância que começa a ter cada palavra que publico. Tudo bem, eu lido lindamente com a pressão, mas a sensação que eu não quero nunca passar é a de que sou qualquer coisa que não está ao alcance de quem quer que seja. Porque o que eu atingi, não é algo exclusivo e destinado a mim. É apenas (como se não tivesse custado nada?!) persistência, trabalho duro. Gosto disto de poder ser uma inspiração, desde que isso continue a aproximar as pessoas de mim e do que eu atingi e nunca o contrário. Como já escrevi um dia: sou uma miúda comum, que, como tantas outras, viveu um distúrbio alimentar sério. Sou uma miúda comum que conseguiu mudar de vida, porque procurou ajuda para se tratar, aprendeu a comer melhor e descobriu no treino um prazer que desconhecia. Eu sou isto tudo, que ainda é pouco, dadas as minhas ambições, mas sou real e não há pedestal que me assente melhor, do que esta alegria autêntica de viver a vida nova que escolhi para mim.