Posso escrever todos os dias sobre o quanto a minha vida mudou nos últimos anos. Posso e devo, para inspirar outros e para me certificar comigo mesma que é real. Uma vez vi uma reportagem com um homem que tinha perdido quase 100 quilos. Era outra pessoa, quase irreconhecível. Dizia ele que o corpo tinha ficado magro, mas a cabeça não. Que frequentemente se desviava de objetos com a distância maior do que então necessitava, pois o seu pensamento era sempre o de não caber ali. Contava também que tinha de levar vários tamanhos de roupa para o provador, pois era muito difícil, de forma consciente, aceitar que vestia menos 10 números do que alguma vez vestiu. Vi aquela reportagem quando ainda não tinha perdido peso e, por isso, não compreendi o que dizia. Hoje percebo perfeitamente. Se vos disser que é com dificuldade que me reconheço em fotografias como esta, acreditam? Acreditem. Ainda dou por mim a ajeitar as calças, para não se ver a banha que já cá não está. Ainda dou por mim a cruzar os braços para esconder as mamas que entretanto foram à vida delas. Ainda dou por mim a duvidar que mudei. Ninguém nos prepara para isto. Para viver num corpo diferente daquele que tivemos durante muitos anos. É todo um processo de autoaceitação e de cuidado muito próprio. É bom, mas dá trabalho e não é sempre linear. A minha esperança é que este texto cause estranheza a quem quer mudar, como eu queria quando vi aquela reportagem. E que, um dia, possam sentir isto, que mesmo sendo estranho, é indescritível.

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