Mês: julho 2018

Colo

Escrevo, e sempre escreverei, com a intenção de ser esperança. Esperança a quem passa por tudo o que eu passei e por isso sei o que custa. A minha voz também é vossa. O que nunca esconderei é que nem todos os dias são fáceis. Fácil é vestir uma roupa gira e tirar uma fotografia num espelho. Fácil é ler as mensagens que me mandam todos os dias, que me alimentam o ego (obrigada). Isso é fácil. Já esta decisão, a ser permanente tal como a desejo, tem dias bons, em que me sinto a maior, e tem outros dias de extremo cansaço, de desmotivação, de quase exaustão. E nesses dias, sabem o que me salva? Estar rodeada das pessoas certas. Aquelas que escolhi, e escolho todos os dias, para estarem ao meu lado. Porque no fim de contas, por muito forte que eu seja, por muito ambiciosa que me apresente, como todos, também preciso de colo. É o colo ponderado que nos embala. Sempre. Esta não sou eu a desistir de nada. Esta sou eu a sair de dias menos bons, a tornar o difícil mais fácil. A tentar ser feliz (durante a maior parte do tempo).

É possível engordar, comendo apenas comida saudável?

Os processos de emagrecimento parecem estar sempre a ser reinventados. A todo o segundo aparece uma dieta mais eficaz, um alimento promissor, um processo milagroso. São como cogumelos. Venenosos. Porque, só há uma maneira de emagrecer: gastando mais calorias do que aquelas que se consomem ou consumindo menos calorias do que aquelas que se gastam. O que se vai fazendo pelo meio pode funcionar com a Tia Joaquina e não resultar com a Prima Amélia e vice-versa. Isto é uma daquelas verdades inabaláveis.

Agora, claro que há uma série de princípios que são do senso comum: os doces, os fritos, os processados, não dão saúde a ninguém. Porém, a vaga da alimentação saudável traz consigo alguns equívocos, que podem ser prejudiciais a uma perda de peso sustentada e eficaz (não rápida!). Vou dar alguns exemplos: o abacate anda nas bocas do mundo. É uma gordura saudável e veio deitar por terra que as gorduras são inimigas da perda de peso. Aceite. No entanto, eu garanto, se comerem tostas de abacate de manhã à noite, talvez não emagreçam assim tanto como desejam.

Quem diz abacate diz frutos secos. Mesmo os que são ao natural. Os frutos secos são uma bomba calórica. Devemos consumi-los, sim, mas com conta, peso e medida. Basta procurarem no Google e verão inúmeras tabelas que mostram as quantidades diárias sugeridas de cada tipo de fruto. O mesmo se passa com a fruta. Sim, a fruta é saudável e tem montes de nutrientes bons, mas para quem quer perder peso, uma peça de fruta por dia é mais do que suficiente. A fruta é açúcar! Estes são apenas alguns exemplos de alimentos que nos podem levar ao engano.

Depois há o flagelo dos light, diet e zero. Já escrevi um texto sobre isto. Estes produtos são criados para serem comprados e para darem lucro, não para nos darem saúde. Por isso, não vão nas histórias das bolachas não sei quê, nem das granolas não sei quantas. Isso é tudo marketing. Neste sentido, ler os rótulos é fundamental. Quanto menos ingredientes tiver um pacote de qualquer cena, melhor. Muito melhor.

E assim de repente, parece-me ser isto. É possível engordar, comendo apenas comida saudável? É. Eu sei que esta minha questão levanta ainda mais dúvidas e deixa as pessoas ainda mais perdidas, mas julgo que, juntos, podemos começar este caminho. O mais importante é termos alguma noção do valor calórico daquilo que comemos e mexermos o bumbum. No fundo, interessa assegurar que gastamos mais do que ingerimos. Esse é o único milagre do emagrecimento. Quem disser o contrário disto, estará a mentir para vos tentar vender alguma coisa. Olhos abertos, minha gente, olhos abertos.

Conseguimos fazer isto sozinhos?

Outra das perguntas que me fazem regularmente, é que tipo de apoio técnico tive para perder o peso todo que perdi. Ao longo da minha vida, e pensando em todas as dietas que fiz, fui conhecendo nutricionistas que me foram passando planos alimentares variados. Regra geral, com todos esses planos eu perdi peso. Porém, embarquei sempre em dietas muito restritivas e, por isso, assim que parava a dieta, engordava tudo outra vez ou mais ainda.

Aos 28 anos conheci a doutora Catarina, a quem sou profundamente grata. A sua página de Facebook anunciava como especialidade o Comportamento Alimentar e eu achei que era isso que precisava de mudar: o meu comportamento perante a comida. A primeira consulta foi duríssima. Pela primeira vez eu contei a alguém o que fazia, como comer enormes quantidades de comida às escondidas e chorei de vergonha.

No início, estas consultas eram semanais e, para além de se ir ajustando o plano alimentar, ia também falando com a doutora sobre o que tinha comido e em que situações. Aos poucos, fomos encontrando um padrão na minha fome: eu comia sempre que estava mais cansada ou me sentia a explodir por alguma razão. Fomos analisando estas questões, eu fui perdendo peso. Este processo começou há quatro anos.

Para além da doutora Catarina, para a alimentação, tive a sorte de entrar numa box de Crossfit – a Crossfit Restelo – que me acolheu de forma irrepreensível. Nunca vi nos olhos de nenhum dos treinadores os olhos que já tinha visto um dia nos ginásios que tinha frequentado. Olharam para mim, reconheceram o meu esforço e ajudaram-me a tornar-me na atleta que sou hoje. O Luís, sobretudo, por ser o treinador que mais se dedicou a esta causa, foi determinante.

Conseguimos fazer isto sozinhos? Eu não teria conseguido, julgo eu. Porque há momentos em que só nos apetece mandar tudo às urtigas e voltar a comer este mundo e o outro. Por isso, estas pessoas foram determinantes para este processo todo e eu sou-lhe eternamente grata. Serve este texto para reforçar que existem bons e maus profissionais em todo lado e grande parte da qualidade deles prende-se, também, com a empatia que criamos ou não.

É fundamental que acreditemos e cumpramos aquilo que nos sugerem, porque essa é a sua especialidade. Para quê inventar? Eu tentei muitas vezes sozinha e fracassei sempre, mas acredito que haja histórias de sucesso diferentes da minha. Mas eu só posso escrever sobre o que me toca e o que me toca é isto: tornamo-nos melhores, quando nos rodeamos dos melhores. E para mim, estes foram os melhores do mundo.

#mudaporti

Tirei esta fotografia há umas semanas. Tinha um dia de praia combinado com amigas e levantei-me mais cedo para treinar em casa. Em casa tenho um elástico, um peso e uma corda. Dá para fazer uma quantidade gigante de exercícios com este pouco material. Mas bom, o que interessa aqui não é isso: o que importa é que esta fotografia mostra um corpo que eu nunca imaginei como meu. Só em sonhos. A barriga, sobretudo! Por causa da barriga que tinha, passei anos sem ir à praia, privei-me de usar o umbigo de fora, quando todas as miúdas o faziam, tive a alcunha de Pote de Banhas… Por tudo isto, e por tantos mais desgostos e inibições que vivi, eu morro de orgulho destes abdominais. São muito mais do que se vê. São a prova mais que provada, a mim mesma, que eu consigo tudo o que quero (e depende de mim). São a materialização da força de vontade que eu tenho. E deste empenho doido, que chega para mim e para mais meio mundo.

Às vezes…

Às vezes tenho medo de ser feliz. Tenho medo desta paz que me invade o corpo, dos pés à cabeça. Às vezes, lamento esta felicidade. Como se não a merecesse. Como se nunca a tivesse desejado. Às vezes, sinto receio. Receio que chegue um vendaval e destrua isto tudo. Esta alegria que tenho e que, dizem, é contagiante. Eu rio com os olhos, com a boca. Eu rio por fora. Rio ainda mais por dentro. Se a minha vida é perfeita? Não. Se eu gostava que este momento durasse para sempre? Amava. Por isso, nada mais me resta que não usufruir. Gozar todo o meu esforço, todo o meu trabalho, tantas as minhas lágrimas. Resta isso, que chega e dá para vender. Talvez até abra uma banca, com o slogan: Vende-se Alegria! Talvez seja um sucesso. Ou não. Será que as pessoas querem realmente ser felizes? Será? Talvez também tenham esse medo, como eu. Mas só às vezes. Noutras, permito-me SÓ a ser tudo o que sempre desejei.