É muito difícil explicar uma crise de compulsão alimentar. Quando sentia vontade de comer, comia tudo o que me aparecessse à frente. Ou ia às compras e comia tudo em casa ou comia na pastelaria ou no restaurante em que entrasse.

Eu deixava de pensar racionalmente. Eu só queria acalmar aquela ansiedade, aquela fome sem medida. Eu só queria comer até me sentir completamente cheia. Fisicamente cheia. Eu só parava de comer, quando não conseguia comer mais.

Numa hora eu conseguia beber uma garrafa de coca-cola, dois folhados de carne, uma embalagem de quatro donuts e duas tabletes de chocolate. Cheguei a comer uma caixa de mini-bolas de berlim, numa pastelaria, e no minuto a seguir comer um menu grande do Mc Donald’s, um saco de nuggets, um gelado e um saco de gomas.

Comia tudo muito depressa, sofregamente. Eu queria fazer-me mal. Queria castigar-me. Porquê? Por muitas razões: porque tinha falhado mais uma dieta, porque me tinha zangado com alguém, por alguém me tinha magoado, porque tinha uma relação infeliz, porque me sentia mal comigo, porque não sentia nada.

Foram anos disto. Anos. De um descontrolo sem fim à vista. De fome, à frente dos outros, de compulsão, sozinha comigo. Um jogo duplo que me matava, de dentro para fora, que me impedia de ser quem queria ser. Um vício, escondido e perturbador, seguido por pesagens constantes, diárias, apenas para constatar o inevitável: eu continuava gorda.

Quando comecei a perceber que tinha um problema sério com a comida, que ia além da gula, comecei a registar por que razões comia e passei a identificar um padrão: eu odeio falhar e odeio que falhem comigo. Sempre que sentia a falha, comia.

Aos poucos, comecei a antecipar o meu comportamento e prever que a vontade de comer estava a chegar, o que acontecia normalmente ao final do dia. Por isso, comecei a marcar coisas para essas horas: cafés com amigos, explicações, o treino, uma caminhada à beira do rio, uma ida à praia depois do trabalho. No fundo, tentei manter-me ocupada e ter sempre comigo comida que eu pudesse comer, para que não houvesse nenhum tipo de desculpa.

Com o tempo, e com ajuda, estas crises foram desaparecendo. Lembro-me da última que tive: foi a da caixa das mini bolas de berlim, há cerca de dois anos. Vomitei a noite inteira, depois disso, e jurei que nunca mais passava por aquilo. Nunca mais me faria mal daquela maneira. Nunca mais. E tenho conseguido.

Ajuda trabalhar até tarde. Ajuda treinar à tarde. Ajuda ter uma lancheira cheia de coisas. Ajuda ver o meu corpo assim e perceber que há coisas mais gratificantes do que comer. É simples? Não, é um horror que parece não ter solução. É possível de tratar? É. Aqui estou eu, todos os dias, a dizer que é fazível.

Incentivo todos os que passam por isto a registar os motivos por que comem. Procurem encontrar um padrão. Procurem estar ocupados e acompanhados, nos momentos mais críticos. E pensem, mesmo que pareça missão impossível: isto não resolve nada, isto não me faz ser melhor, isto é uma merda, isto tem de parar. Eu vou parar. E vão parando. Até ao dia em que param mesmo.

5 Comments on Por que é que eu comi?

  1. Obrigada, Obrigada mesmo! De coração que agradeço o seu testemunho, porque me anima, me motiva, me faz acreditar que “é possível”!
    Um dia num dos momentos de compulsão e arrependimento encontrei a perna fina (ainda bem) porque mudou a minha forma de vida! E como diz neste texto “até um dia parar mesmo” 🙂

  2. Expões-te assim para ajudares não importa quem. Muita gente, certamente.
    E vemos que a paz e a serenidade já fazem parte de ti. Tão bom para ti. Continua sabendo que vais ter sempre quem te leia e que estás a ajudar muitos. Parabéns, Joana. Bj

  3. Às vezes é cansativo e não me apetece, mas fazer um diário alimentar ajuda-me imenso a ter noção daquilo que comi e quando. No final da semana costumo olhar para trás, fazer uma reflexão e lá está identificar o padrão 🙂
    Obrigada pela inspiração!
    Mil beijos

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