Eu comi muitas vezes às escondidas. Quando a compulsão começou eu tinha 16 anos. Foi nessa idade que fiz a primeira dieta. Durante o dia passava muita fome, à vista de todos. Eu queria ser magra! Ao final do dia, como apanhava um autocarro diferente do dos meus amigos para ir para casa, comia. Comia hambúrgueres e bolos de pastelaria. Também comia gelado e chocolates. Comia sempre sozinha, escondida, com medo que alguém me visse, que alguém visse que estava a falhar.

Ontem, antes do treino, estava a comer uma tapioca sozinha no carro e senti uma sensação muito estranha. Uma sensação de paz gigante. Eu estava a comer no carro, sozinha,  porque estava demasiado cansada para o barulho do centro comercial. A única coisa que queria era usufruir daquela tapoica do bem, antes de me ir acabar no treino que me esperava. Eu só queria estar sozinha comigo. Porque se antes a solidão era um esconderijo, hoje é serenidade.

É impressionante como as mesmas situações podem ser vividas, e sentidas!, de formas tão distintas. É impressionante como podemos fazer com que a nossa vida evolua, se transforme. Ontem, eu podia perfeitamente ter pegado num bolo e ter ido para o carro, sozinha, para o comer longe dos olhares alheios, como fiz tantas vezes. Não foi o que aconteceu. E o mundo pode não acreditar, mas o mais importante disto tudo é mesmo esta boa relação comigo e com o meu corpo. Que eu não volte atrás. Magra ou menos magra. Que eu não volte atrás.

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