Mês: maio 2017

Eu é que os educo (ou tento, vá)!

Eu nasci, não é verdade, e os meus pais passaram a ser responsáveis pela minha educação. E foram bem supimpas na tarefa: tenho-me como uma miúda educada, que sabe estar. Cof cof. Porém, do alto dos meus 30 anos bem feitos, constatei há uns tempos que, hoje em dia, quem educa o meus pais, e o meu irmão, sou eu. Não no geral, que somos todos amantes da liberdade de espírito, mas alimentarmente falando.

Faça-se aqui um breve parêntese: a minha família gosta de comer. Somos todos bestas de grande alimento. Gostamos tanto do salgado, como do doce. Gostamos da mesa farta, quase sem espaço para pôr a loiça e os talheres. Depois, somos craques em arranjar desculpas para comer. O Benfica ganhou? ‘bora comer! O Benfica perdeu? ‘bora comer. Passa tudo muito por comer, só porque sim.

Ora, vai que cresci imbuída neste espírito de comer como se não houvesse amanhã e o resultado esteve, claramente, à vista. Quando comecei a mudar de vida, a minha família achou que seria um episódio com fim à vista, como tinham sido todos os outros. Para seu grande espanto, este episódio dura há mais de três anos e, parece-me, só há pouco tempo perceberam que não vou MESMO voltar a ser uma pequena grande orca.

Agora, eu trabalhei muito este meu problema da comida. Com consultas, com autoreflexão, com desporto. Eles não. Sucede que os velhos hábitos ainda lhes estão muito impregnados e teimam em não sair, de maneira nenhuma, o que é uma grande chatice. Como alguém tem de pôr ordem na barraca, assumi o papel de mentora alimentar da minha mãe, pai e irmão. Porém, não tenho sido muito bem sucedida.

A minha rica mãe é a que mais me ouve. Continua sem deixar o pão e o leite, que eu acho que só lhe fazia era bem, mas pronto. Tem cuidado, sobretudo, ao jantar. Faz uma alimentação muito mais à base de peixe do que de carne, come fruta e legumes com fartura. Está mais magra, diz que tem menos vontade de comer. Maravilha. O meu pai e o meu irmão, é um vê se te avias.

Cereais com fartura, pão com manteiga aos sacos, iogurtes açucarados, pizas, douradinhos, massas, muito arroz e, no caso do meu irmão, pouquíssimos vegetais e frutas. É muito esquisitinho, o menino! Confesso, que estou quase a abortar missão com estes dois. Já devia saber, por mim, que ou uma pessoa muda porque quer ou nada feito. Eu já devia saber, mas enfim.

Eu é que os educo (ou tento, vá), mas ou eles mudam porque assim o desejam ou…

Autoboicote

Muitas vezes desejamos estar de uma determinada forma, que nos parece impossível de alcançar. E lamentamos, lamentamos muito, o facto de não termos nascido altas de espadaúdas. Eu sempre fui assim: uma insatisfeita com o meu aspeto. Imaginava-me sempre magra, muito bronzeada e loura. Talvez tanta Barbie me tenha feito mal, sei lá. Talvez.

Loura fui, a determinada altura do campeonato. Quem me fez as madeixas foi a mãe de uma amiga da época. Uma bela merda, foi o que foi. Tinha o cabelo às riscas, grossas, de um péssimo gosto. Durante anos tive de pintar o cabelo da minha cor, para reparar o estrago. Não havia mais nada a fazer.

O bronze, aparentemente o desejo mais fácil de concretizar, tornava-se impossível porque eu evitava as idas à praia. Com gente da minha idade nem pensar, a não ser que fossem da minha extrema confiança. Deus Nosso Senhor quis eu fosse branca, branca, portanto, o que à partida parecia fácil, era só mais um desejo por cumprir.

Magra? Como é que eu podia ser magra? Eu comia como se não houvesse amanhã, todos os dias. Comia muitas gomas, muitos gelados, muitos aperitivos de queijo, muitos hambúrgueres. Fora de casa, sobretudo, com a semanada que os meu pais me davam para comer na cantina da escola.

O autoboicote foi a principal razão do meu insucesso, durante muitos anos. Eu achava que queria mudar, mas, na verdade, fazia muito pouco por conseguir o que queria. Ou achava que queria. Se eu tivesse de eleger um dos principais objetivos que atingi, seria este: parar o autoboicote.

Ultimamente, tenho-me boicotado pouquíssimo. Aqueles extrazinhos ao final do dia acabaram, praticamente na totalidade, há uns meses. Episódios de idas a pastelarias, sozinha, comer um bolo, são cada vez menos recorrentes. Não me lembro da última vez que aconteceu. No meu caso, é um ótimo sinal.

Não digo que não como nada que saia da minha alimentação de todos os dias. Claro que como. Ainda ontem soube o que era o céu com um Snickers de chocolate branco (é de edição limitada, tive de provar!). Mas sinto que me consigo controlar cada vez mais. Mesmo.

E, aos poucos, os resultados vão aparecendo. Não no peso, estou a cagar-me para o peso, mas no aspeto do meu corpo, na forma como me sinto e na confiança que carrego no peito por, finalmente, poder ser como sempre me imaginei.

[A imagem é meramente ilustrativa. Eu lá queria um cabelo daqueles!?]

Coisas que me tiram do sério #10

Pessoas que fazem tudo by the book. Todos os dias, a todas as horas, em todos os segundos. Uma seca de gente. Que não fazem nada fora da regra, que nunca prevaricam, que nunca se desviam do caminho. Sobretudo na alimentação, se há coisa que me irrita são os fundamentalismos. Nunca mais como açúcar, numa mais como pão, nunca mais como queijo. Passo as férias todas a comer folhas de alface com frango grelhado, o Natal a comer bolo rei sem glúten, mesmo não tendo nenhum tipo de intolerância, só porque sim, e na Páscoa só amêndoas ressequidas, sem sabor nenhum. E passam os dias assim: na sua ideologia fechada, sem saberem que há vida para além das regras de todos os dias. Às vezes penso para comigo: será que não têm curiosidade em saber o que há para além daquilo que pregam? Ou será que, às escondidas, partem a loiça toda? Não sei. Só sei que me irrita, porque na vida, nem tanto nem tão pouco.