Mês: janeiro 2017

Esta sou eu.


Eu tenho a cara torta. Sempre tive e sempre soube disso. Um dia o meu dentista, que é amigo da minha família e me conhece desde que nasci, confirmou-me o que eu já sabia. Eu tenho a cara torta. Usei aparelho nos dentes para corrigir, mas acho que isto acabou por voltar ao que estava. Houve um ano na escola em que uns simpáticos colegas decidiram chamar-me Capitão América, por causa do meu queixo exuberante. Foi só mais uma alcunha, no meio de tantas que eu já tinha tido ao longo da minha vida na escola. Lembro-me que fizeram um desenho meu, uma caricatura, e que o expuseram no quadro de cortiça da sala. Uns amores, portanto. Bons cidadãos mesmo. Durante muitos anos evitei fotografias que focassem muito o meu perfil. Houve até a possibilidade de me serrarem a cara para corrigir isto, mas teria de ficar três meses a comer por uma palhinha. Fiquei assim. Hoje tirei esta selfie e lá está o meu queixo torto e saliente. Hoje não me incomoda nada. Não sou perfeita. Já deixei de querer ser. Esta sou eu.

Jantares

Há pessoas que adoram o pequeno-almoço. Outras que deliram com os almoços que se prolongam pela tarde. Há ainda quem se passe com jantaradas até altas horas. Eu adoro todas as refeições. Adoro comer de manhã, a meio do dia, à tarde e à noite. Sou uma moça de grande apetite e não o nego. Gosto muito de comer. Facto. Porém, desde que mudei de vida que os jantares passaram a ter uma atenção especial.

Durante muitos, muitos anos, eu passei o tempo a privar-me de comer durante o dia. Foi quando comecei o ciclo das dietas, aos 16 anos. Espalhei aos sete ventos que ia emagrecer, que queria emagrecer e, por isso, passava o dia numa profunda contenção. No secundário, meses a fio, eu almocei uma sopa e uma peça de fruta. Eu achava que era por passar fome que ia emagrecer.

O que é que acontecia depois? Chegava ao fim da tarde com uma fome, que nem Deus Nosso Senhor me valia. Ninguém me valia. Só o pão com manteiga, os bolos de pastelaria que comia a caminho de casa, os menus de hambúrgueres, os pacotes de aperitivos de queijo. Foi nesta altura que comecei a desenvolver um comportamento de compulsão alimentar. Foram muitos anos de sofrimento. De privação e de exagero, numa angústia que me parecia não ter fim.

Chegava a casa e comia mais. Jantava o que havia para jantar, porque a minha família não me controlava nisso (talvez o devesse ter feito). Resultado? Eu nunca consegui atingir os meus objetivos porque, na verdade, o meu comportamento era tudo menos equilibrado. Emagrecia e engordava. Engordava e emagrecia. Vezes sem conta. Vivia numa permanente frustração comigo própria. A desejar coisas que me pareciam impossíveis.

Hoje, e depois de muitas consultas e de muita reflexão, percebo que eu fazia tudo ao contrário. Hoje é durante o dia que me alimento de tudo o que devo. Como pão, iogurtes, legumes crus, frutos secos, fruta fresca, carne, peixe, ovos, tudo isto. Para além das refeições principais, faço um lanche a meio da manhã e dois durante a tarde, o segundo pouco tempo antes de treinar.

Ao jantar, como muito, muito pouco: um prato de sopa e um ovo cozido, uma lata de atum com legumes, uma omeleta… Vegetais e proteína, sem muitos exageros. Porque a verdade é que janto muito pouco tempo antes de dormir e tudo o que comer me vai parar à anca. Por isso, não vale a pena inventar muito. Eu continuo a adorar jantar e dou a vida por uma tarde de petiscos, mas não posso fazer disso um hábito.

Antigamente eu ficava super frustrada por perceber que não podia comer certas coisas sempre que me apetecia. Que tonta! Agora eu percebo que eu não tenho de fazer esta escolha, se assim o entender. Mas o que eu percebo também, é que é muito mais importante me sentir bem comigo, vestir as roupas que gosto e ser confiante, do que comer arroz à noite. Muito, muito mais.

E então, como estamos até agora?

Já passaram 3 dias do ano novo. Sei que parece pouco tempo para se fazer um balanço do que quer que seja, mas as coisas começam pelo princípio, por isso, hoje parece-me ser o dia ideal para uma reflexão. Já voltaram a pensar nos desejos da meia noite de dia 1? Ou nunca mais pensaram nisso? Desejaram o quê: ser mais tolerantes? Ter mais tempo? Comer melhor? Fazer um treininho de meia hora por dia? Levantar mais cedo para não sair de casa sem tomar o pequeno-almoço? Arranjar a roupa no dia anterior, para que de madrugada não vos apeteça ir de pijama trabalhar? Foi alguma coisa deste género? Mas depois voltaram ao trabalho e o vosso colega foi mais do que irritante que há e a vossa atitude foi tudo menos tolerante. E tiveram mil pontas para acertar e tempo nem vê-lo. Como se não chegasse, chegaram ao sítio onde costumam almoçar e só havia qualquer coisa muito próxima de esparguete à bolonhesa ou bacalhau com natas. Treinar? Querem é enfiar-se na cama, tanto que é o frio e a chuva. Por aí adiante. De repente, parece-vos que nada do que desejaram se cumprirá nos próximos anos, porque o dia a dia é um caos e percebem que, talvez e afinal, 2018 é que é mesmo o ano. Desenganem-se! Cada vez mais acredito que a vida é o que fazemos dela. Mais: é o que fazemos com o que a vida nos dá ou o que fazemos para que a vida nos dê [o que queremos]. Assim sendo, recomecem tudo de novo amanhã. E depois. E depois. Não há nada melhor do que controlar a nossa própria vida. Até porque isso é o suposto, não o contrário.

Ano Novo

Ontem, enquanto ouvia toda a gente aos gritos e o barulho do fogo de artifício, anunciando a chegada do ano novo, eu só pensei em duas coisas: em ter saúde, muita saúde, e em ser uma pessoa absolutamente focada. Focada no cuidado com o meu corpo e com a minha alma. Focada no meu trabalho e na minha profissão. Focada nos treinos. Focada nos que me são queridos. Focada nos meus objetivos e no que tenho de fazer para os atingir, sem desculpas. Para que isto tudo aconteça, preciso de saúde. Só quero isto. Por tudo, que só quero isto. Já fui uma menina muito pedinchona, mas agora não. Agora só quero ter a capacidade para fazer as coisas acontecerem, em vez de esperar que simplesmente aconteçam. 2017? Estou cheia de fé.