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Eu punia-me muitas vezes. Vivia a minha existência entre a incontrolável vontade de comer e a punição. Sabia que queria ser magra. Tinha muita fome. Fome de quê? Fome de coisas que nunca me levariam a ter o corpo que queria. Uma fome que ultrapassava muito a fome física. Uma vontade de preencher vazios. [Mas só isto dava um post.]

Vazios preenchidos e montes de buzinas a apitar na minha cabeça e no meu coração. Sons que me faziam dizer: portei-me mal. Portei-me mal outra vez. Tantas vezes. Os meus dias eram muito isto: o mal estar entre a fome, o comer demais e a punição. Quanto mais me punia, pior me sentia, mais vontade tinha de comer, mais odiava o meu corpo.

É claro que pelo meio dos dias havia a escola, os namoros, as saídas. Mais tarde o trabalho e todas as alegrias que vivia por ter esta profissão que escolhi, por exemplo. Mas, quando estava sozinha comigo, confesso, era sobretudo neste meu problema que eu pensava. Eu fazia planos, listas, previsões, promessas. Nada resultava. Nada.

A minha questão era muito mais do que física, eu é que não sabia. Pior do que o meu perímetro abdominal, estava a minha cabeça, a forma como eu vivia e via a minha vida de todos os dias. E todas as vezes que existia para agradar outros, para fazer o que era suposto, para ser quem não queria, num autoengano permanente.

Alguns acharão que era (e sou!) uma pessoa que roçava o fútil, que me preocupava demasiado com o meu aspeto e com a forma como me via. Estarão sempre no seu direito. O que eu vivia ultrapassava, em muito, a futilidade quando o que sentia me comprometia como pessoa, com direito a viver em pleno.

Afinal, eu passava o tempo a achar que me tinha portado mal. A castigar-me. A ser má comigo. Nada [nem ninguém] deve ter o poder de me controlar desta maneira. Portei-me mal? Sim, portei, mas não foi por ter comido. Portei-me mal porque adiei a decisão de mudar, mesmo que não soubesse como. Ou talvez nem aí me tenha portado mal.

Talvez me tenha estado a preparar para o dia de hoje. Para ser mais grata por tudo o que me sinto a cada manhã. Nunca mais do que ninguém. Jamais menos do que quem quer que seja. É, eu nunca me portei mal. Levei foi muito tempo a descobrir que tenho a capacidade de me reinventar todos os dias. Tenho eu e temos todos.

5 Comments on Portei-me mal

  1. Adorei, conseguiu colocar em palavras o que me vai na alma todos os dias, ainda para mais partilhamos a mesma profissão. Comecei agr a mudar, pequenos passos…espero aos poucos e com muita preserverança conseguir. Parabéns por ter conseguido mudar e aqui partilhar a experiência. Um bem-haja!

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