Mês: março 2016

Os meus alunos são os melhores do mundo #9

[Quando se portam mal e depois me enviam e-mails destes.]

Querida Joana,
Peço muita desculpa por ter sido tão malcriado e por lhe ter faltado ao respeito. Sabe é que eu estava a ter um dia mau no recreio, mas apesar disso a minha atitude não tem desculpa. A Joana sabe que eu gosto muito de si e que não queria ter feito aquilo. Não é assim que os meus pais me educam e eu estou muito desiludido comigo próprio. Espero que a Joana me consiga perdoar e que volte a confiar em mim, prometo que não volto a fazer. #confia

Um grande beijinho e muitas desculpas.

Consultório Sentimental #3

imageQuem foi o animal que inventou o WhatsApp? Quem foi, que eu quero conversar com ele. É que o WhatsApp veio minar, ainda mais, as relações. Porque quando eu comecei nisto de trocar mensagens com alguém, no meu Nokia 3310, aparecia um relatório a dizer Entregue e pronto. E eu ficava naquela: já viu? Não viu? Está ocupado? Está a cagar-se para mim? Está com a outra? Agora não: agora tenho a certeza que leu e que, por alguma razão, não me respondeu. Mais: a app faz o favor de me mostrar a hora em que esteve online pela última vez, o que me deixa saber, muitas vezes, que lá voltou e mesmo assim não se dignou a responder-me. E esta informação dá cabo de mim. Ver aqueles dois certinhos azuis é o equivalente a ter farpas espetadas no meu pobre coração. Porque acho logo: já foste. Do género: esquece, Joana, a esta hora o teu homem está a rebolar-se com uma morena turbinada e tu estás aqui, obcecada com os dois certinhos azuis. Quem é que inventou esta merda, pá? Quem foi?

[Relembro que nem todos os textos são autobiográficos, ok?]

Comer sem culpa

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Já escrevi milhentas vezes que vivi de dietas. Vivi de passar fome e de comer muito. Vivi, anos, numa busca permanente entre aquilo que queria ser e o que era na realidade. Sempre que comia alguma coisa para além do peixe cozido ou do bife grelhado, comia com culpa. Comia com os pensamentos a invadirem a minha cabeça, num turbilhão de emoções que me dizia: tu queres comer, tu precisas de comer, mas sabes que, assim, nunca serás magra. Acabava por comer, porque o apetite falava mais alto, e por me sentir muito culpada por isso. Hoje como sem culpa. Como com a certeza de que não como todos os dias mal. Como a saber que na refeição seguinte volto ao meu plano. Não no dia seguinte, não na semana seguinte, na refeição seguinte. Como a saber que me vou acabar nos treinos, conseguindo gastar tudo o que comi e o que mais houvesse. Como a saber que não é um gaufre que me fará engordar, mas que dois ou três farão e, por isso, nos próximos dias não voltarei a cheirar coisas do género. Comer sem culpa, de forma consciente, é meio caminho andado para uma perda de peso bem sucedida. É o caminho inteiro para a liberdade de um corpo que, durante anos, foi escravo de si mesmo.

Paciência

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Eu, Joana Duarte, me assumo como pessoa pouco paciente. Gosto de ver as coisas a andar, a um bom ritmo. Gosto de ver avanços, ou recuos, tem é de haver movimento. Há apenas um local em que tenho uma paciência quase inesgotável: dentro de sala, com os miúdos. Talvez por gastar toda a minha paciência com eles, me falte para outros aspetos da minha vida. Acho que, talvez também por isso, tenha demorado tanto tempo a encontrar uma solução duradoura para a perda peso. Eu queria resultados, rapidamente. Queria perder vinte e tal quilos num ai, por não comer durante uma semana ou duas. Assim, como se fosse magia. Mas entre o que eu queria e o que acontecia realmente, ia sempre uma grande distância. Por ter noção desta minha impaciência, desta minha incapacidade de saber esperar, tenho dado por mim a treinar esta competência. E isto tem muito pouco de filosófico. Tenho-me treinado a esperar em situações muito concretas do dia a dia: pensar antes de dar uma resposta torta a alguém, ouvir com atenção em vez de interromper, andar mais calmamente na rua, conduzir mais devagar, estacionar o carro com mais tempo. No fundo, ando a gerir as minhas doses de ansiedade frenética, que me carateriza, mas também me mata (aos poucos). Porque isto de saber esperar é mais importante do que parece. Poupa-nos muito. Paciência para emagrecer. Paciência para conhecer. Paciência para esperar. Paciência para estar. Paciência para ter. Paciência para ser. Muita, muita paciência.

Os de sempre

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Há alimentos que comemos porque sempre comemos. Porque fazem parte da história da nossa vida e da nossa família. Por isso, nem nos questionamos se alguns deles cumprem os requisitos a que se propõem. Comemos e pronto. Já muito se vai falando de alguns termos que acusam ser prejudicais a alguns organismos, como a lactose e o glúten. Porém, o perigo das histerias está nas generalizações. De repente, toda a gente corta a lactose e o glúten da alimentação, por exemplo, sem perceber muito bem porquê. É um bocado como as calças à boca de sino: está na moda, a malta usa. Mesmo que aquele modelo não nos favoreça minimamente. Com os alimentos, ou com os componentes de alguns alimentos, passa-se exatamente o mesmo. Nem toda a gente tem de evitar a lactose ou o glúten. Depende tudo da forma como o nosso organismo reage a essas substâncias, digamos assim.

Eu nunca gostei de leite. Nunca. Fiquei sempre muito mal disposta, com vómitos. Como eu era niquenta, a minha mãe achava que “pelo menos um copo de leite eu tinha de pôr no bucho” e obrigava-me a beber aquilo à força. Para mim, sempre foi uma tortura. A minha mãe conta que vomitava muitas vezes, tinha muitas cólicas, fazia mal as digestões. Foi preciso chegar aos 27 anos para alguém me dizer que, se calhar, não devia beber leite. Que o meu corpo talvez não fosse capaz de o digerir. E eu testei-me. Estive um mês sem comer lacticínios. Acabaram-se as más digestões, a azia, o enfartamento. Depois desse mês, comi um iogurte e ia morrendo. Falando em bom português: tive uma diarreia de caixão à cova, durante as horas seguintes. Há mais de dois anos que não bebo leite, nem iogurtes. Acho que depende da fermentação ou coisa que o valha. O queijo, por exemplo, não tem esse efeito em mim e, por isso, eu como. Não há cá fundamentalismos.

Serve esta história da minha indisposta infância como alerta. Às vezes comemos os alimentos de sempre, não nos sentimos bem com isso, ou o nosso corpo não funciona bem por alguma razão, e não nos disponibilizamos a perceber porquê. Muitas vezes, acabamos a tomar medicamentos para facilitar isto ou aquilo, quando, muitas vezes, a solução estava na alimentação de todos os dias. Sábio é aquele que se dedica a observar o seu corpo. Não de forma obsessiva: aí credo, não como nada disso, mas de forma consciente e moderada. A alimentação deve cumprir o seu objetivo: dar ao corpo os nutrientes que precisa para ser saudável, dar a energia e o bem estar supostos. Se assim não for, talvez devamos ponderar o que é que andamos a fazer menos bem, porque, no final, pode mesmo fazer toda a diferença.

Estou-me cagando!

Quando eu era gorda, era gorda. Quando eu comecei a emagrecer, os ossos da cara começaram a ficar muito salientes. Na boca de alguns estava a ficar demasiado magra. Agora estou a ficar muito musculada e “vê lá, que os homens não gostam disso”. Oh que caraças, deixem-me em paz. O corpo é meu, eu faço dele o que bem entender. Mas por que é que as pessoas se incomodam tanto com o corpo dos outros? Preocupem-se com o seu, bolas. Esteja eu gorda, magra, musculada, cadavérica, uma baleia andante, as pessoas terão sempre o que dizer. Uma coisa é criticar no sentido construtivo da coisa, outra, completamente diferente, é atacar com mesquinhez e maldade. Sabem que mais, pessoas que adoram opinar sobre a quantidade de chicha ou de músculo que trago comigo: estou-me cagando para a vossa opinião. Estou-me cagando d’alto mesmo. Porque, esteja eu como estiver, será sempre graças a mim e não por causa das vossas opiniões moralistas. Credo, isto cansa-me.

Consultório Sentimental #2

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Cresci com os filmes da Disney. Cresci a acreditar que, mais cedo ou mais tarde, apareceria um príncipe e tudo ficaria bem. Tudo? Fosse o que fosse. Aquele homem, lindo de morrer, chegaria para me curar de todos os males. Apaixonar-se-ia de morte por mim, e eu por ele, pedir-me-ia em casamento e, juntos, teríamos uma casa com jardim, filhos e um cão. Ou dois.

Com o passar dos anos, a ideia do príncipe foi esmorecendo e eu comecei a perceber que a Disney me tinha enganado anos a fio. Senti-me traída, mesmo. Bolas, mas não era suposto eu estar numa aflição e aparecer o dito, num cavalo branco, ou numa mota, ou num carro, vá, salvar-me e fazer-me feliz para sempre? Não era suposto?

Pelos vistos não. Pelos vistos, a minha sina de princesa dos tempos modernos é apaixonar-me, uma e outra vez, partir a cara e seguir caminho como se nada fosse. Ser salva? Ele é que me atira para o buraco. A intenção dele é tudo menos salvar-me. Mas bom, será disso que eu estou verdadeiramente à espera? De ser salva?

Se analisar as coisas direitinhas, tal como são, eu também não encaixo no perfil de princesinha aflita, frágil, à espera do salvamento milagroso. A verdade, é que sempre me habituei a fazer as coisas por mim. A conseguir as coisas por mim e pelo meu esforço. Talvez seja por isso que Ele não aparece. Porque eu não preciso de ser salva de nada. De que é que preciso, então? Como será esse príncipe que espero? Será que ainda espero?

Talvez eu não seja mesmo uma princesa e, por isso, não possa continuar à espera de um príncipe. Pelo menos como aqueles que a Disney me fez acreditar que existiam. Talvez eu precise só de alguém que me salve, às vezes, mas que também seja salvo por mim. Que perceba que tão depressa sou a pessoa mais forte do mundo, como, de repente, preciso de me aninhar o seu colo e chorar um bocadinho. E o contrário também.

É isso. Se calhar não sou uma princesa. Sou só uma miúda comum. Por isso, vou parar de imaginar o príncipe que espero desde miúda. Porque ele não existe. Existe, algures no mundo, um miúdo comum que gostará de mim, e eu dele, muito, precisamente por isso. Por sermos ambos pessoas comuns, fortes e fracas, valentes e medrosas, bonitas e às vezes menos bonitas, seguras e vacilantes. Afinal a Disney não me enganou. Só me ensinou a distinguir a fantasia da realidade.

OST #16


Esta é uma das minhas músicas favoritas de todo o sempre. Há muitas versões, muito boas. A da Lauryn Hill é das que mais gosto, mas é esta que não me tem parado de tocar aos ouvidos.

Muda a cabeça!

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Os gordos ouvem muitas vezes: fecha a boca! Queres ser magro? Fecha a boca. Mas a coisa não é assim tão simples. Perder peso é muito, mas muito mais que fechar a boca. Porque o que as pessoas acham é que para se perder peso se tem de parar de comer. Eu também achei isso durante imenso tempo. Aliás, as dietas que fiz incentivaram-me todas a isso. Porém, através do caminho que tenho feito, hoje sei que é precisamente a atitude contrária que nos faz emagrecer. Para perder peso temos de comer, consideravelmente até. Temos de estabelecer um plano alimentar equilibrado, que nos sacie e nos alimente, algo que nos imaginemos a cumprir para o resto da vida e não durante um curto período de tempo. Isso e trabalhar a relação que mantemos com a comida. Comer é muitas vezes emocional. É alegria, é festejo, mas é também dor e frustração. Para mim foi, muitas vezes. Olhar para a comida como fonte de prazer e compensação pode ser perigoso, pode criar dependência. Mudar a cabeça torna-se, por isso, fundamental. Por que é que estou a comer? Porque estou triste? Porque o dia foi uma merda? Estou a comer esta caixa de gelado inteira por que razão? Tenho fome? Ou apetece-me engolir isto tudo irracionalmente? Eu continuo a colocar estas perguntas a mim mesma, sempre que tenho um apetite fora do normal. Sempre que sinto que volto aos comportamentos que tinha há anos atrás. Eu continuo a mudar a minha cabeça e gostava muito de incentivar outros a fazer o mesmo, porque sinto, e creio profundamente, que essa é a única forma de perder peso de forma consistente e irreversível.