Gostar de alguém devia ser simples. Devia ser como gostar de chocolate. Gostava-se e pronto. Do outro lado o sentimento vinha na mesma proporção. Era terno, sincero, profundo. Tinha tesão, colo e festas no cabelo. Havia cumplicidade e vontade de, juntos, construir qualquer coisa nova, sólida, refletida. Mas gostar de alguém nem sempre é fácil. Por termos bagagem emocional, fruto de relacionamentos passados, e por estarmos sempre à espera que algo corra mal, passamos a vida a desconfiar. A entrar em jogos tontos, a destratar, a ser distantes, a testar o outro. A controlar. E isto não devia passar-se assim. Conhecer alguém suficientemente interessante devia dar-nos a esperança (e a confiança) de acreditar que as intenções daquela pessoa são as melhores. Ter a capacidade de olhar para alguém e confiar é, talvez, o maior desafio de quem quer gostar verdadeira e intensamente. Porque confiar implica, de nós mesmos, a certeza de que o que damos ao outro é de tal forma transparente que a paga será feita, exatamente, na mesma moeda. Porque é o que é justo. Porque só pode ser assim, não de outra maneira. Gostar de alguém é confiar. Na verdade, gostar e confiar deviam ser sinónimos. Por isso, a próxima vez que dissermos gosto de ti, estaremos a dizer confio em ti. Sem vacilar. Profundamente. A desejar que seja para sempre. Porque se assim não for, não é gostar.

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