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Eu nunca gostei de ginásios. Nunca. Sempre tive a sensação que algumas pessoas lá estão para se mostrarem e não para se tornarem mais saudáveis. Essa sempre foi a minha impressão. Andei nalguns ginásios, mas ia para lá sempre muito contrariada. Primeiro porque era gorda e porque sentia sempre uns olhares trocistas, do género: oh gorda, vai masé agarrar-te a mais uma bolinha de berlim e não ocupes o espaço de pessoas boazonas. Tipo: sai daqui, não pertences a este lugar.

Quero acreditar que tive pouca sorte. Que nos ginásios existe bom ambiente e que todos são bem vindos, sejam mais ou menos fit, mas isso não aconteceu comigo. No início do blogue, comecei a frequentar um ginásio com alguma regularidade e dei por mim, constantemente, a observar os que lá estavam. Segue-se a análise daquilo que observei.

Eles – Os tipos do ginásio são todos muito semelhantes ao Cristiano Ronaldo, que é um rico jogador, mas tem sempre aquele ar pouco polido. São gajos bronzeados, com gel no cabelo, patilhas fininhas e muitos, muitos músculos. Tantos, que quase não conseguem fechar os braços e, por isso, andam como se fossem autênticos homens primitivos à procura da presa. A sua indumentária de treino é escolhida com todo o cuidado: usam, quase sempre, uma camisola de alças, toda rasgada, para que possam observar convenientemente os bíceps, enquanto os trabalham, em frente ao espelho. Consigo, trazem sempre um shaker com líquidos de cor duvidosa e bebem-nos muitas vezes durante as séries de exercícios. Séries, inúmeras séries do mesmo exercício. Isto porque treinam apenas um grupo muscular por dia e orgulham-se de postar selfies a dizer: dia de peito, fazendo uma peitaça semelhante à de um peru prestes a acasalar. Estão horas no ginásio, hooooooooras, mas é mais o tempo que passam a ver o seu reflexo e a olhar para o rabo das boazonas do que a treinar, efetivamente.

Elas – Se eles parecem o Cristiano, elas parecem umas Barbies. E não aquelas que saíram ultimamente, com diferentes tipos de corpo, as de antigamente, mesmo. Não interessa se são loiras ou morenas, o que interessa é se têm umas mamas e um rabo jeitoso. Isto, porque é indispensável que vistam aqueles fatos de lycra, que vão desde o pescoço até à canela. Até ao pescoço é como quem diz, que os fatos são completos, mas espera-se que tapem apenas parte do peito. Fato, meias, ténis a condizer e uma maquilhagem imaculada. Porque elas não vão para ali suar. Vão mostrar-se, perceber se há algum PT novo e giro, que as possa ajudar a arrendondar ainda mais aquele bufunfo que já roça a perfeição. Sim, porque elas treinam sobretudo o rabo e as pernas. Todos os dias são dias de rabo e pernas. Doutra maneira, como vestirão os fatos de mergulhadoras sensuais? Os seus treinos iniciam-se sempre com uns vinte minutinhos de passadeira ou elíptica, só para que mostrem algum empenho na coisa. Param muitas vezes para beber água, pausa que normalmente coincide com a deles. Nesse momento, trocam-se juras de amor suadas, muitos sorrisos cintilantes e dão-se início a uma série de relações de profuuuuuuuuunda amizade.

Isto, foi o que eu observei, o que eu senti. E foi, muito por isto, que nunca me identifiquei muito com o ambiente dos ginásios. Mais uma vez, quero acreditar que fui eu que tive pouca sorte. Que os espaços que se propõem a oferecer saúde sejam para todos e não apenas para gente turbinada. Lembro-me de ser miúda e de ver a Baywatch e da minha mãe me dizer: já reparaste que nessa praia só entram pessoas bonitas? Devem ter um porteiro a fazer uma seleção de quem pode e não pode frequentar a praia. E é um bocado isto. Apesar destes padrões idiotas já estarem a cair, não deixa de ser verdade que há uma série de experiências que são negadas às pessoas que não se encaixam nesta norma, criada por não sei quem, que dita que quem não é assim ou assado, não pode estar ali ou além.

Nota: Sei que esta descrição corresponde apenas a uma pequena percentagem dos frequentadores de ginásio. Eu sei disso. Mas se fosse falar de pessoas comuns, isto não tinha tanto interesse.

9 Comments on Ginásios

  1. Aguentei 5 meses no ginásio: não podia com essa gente sempre a olhar para mim como quem olha para um leão no circo.
    Ou ia de manhã bem cedo quando ainda só lá estavam duas pessoas ou três, ou então não ia. Andava a pagar para não pôr lá os pés mais do que três vezes por semana… Desisti!

  2. Olá Joana,
    Consigo ter a mesma sensação que tinhas quando entravas no ginásio. Não é que me sinta inferior aos outros que lá andam a pavonear-se, mas porque me sinto observada, até parece que não pago tal como todos eles. É como se estivesses a entrar numa festa sem ser convidada. Mas sabes como ultrapasso isso? Sou cada vez mais confiante e só penso, que eu sou eu e gosto de mim e de como sou, avanço e mostro que me são indiferentes…e tem resultado… quem diz no ginásio, diz também noutros espaços que me tenho sentido “sufocada”, pelos outros e que decidi gostar de mim tal e qual, e sobretudo não contar nada do que faço, nem onde vou, nem como vou…e ai está…criei o meu espaço, a minha bolha e sei que só vão ultrapassar esse limite se eu me permitir…Beijinhos Joana

  3. Se há coisa que me irrita no ginásio é ver a boazona em lingerie a secar o cabelo com toda a calma, eu podia ser igual a ela, mas prefiro ser mãe e não ter as medidas perfeitas, afogar as minhas magoas num ecler com sei lá quantas calorias mas ser saudável… Já foi tempo em que quis ser assim, deixei de comer, fiz muito exercício e fiquei boazona, mas nada mudou, as maçãs verdes não me davam as alegrias de outros tempos… Hoje não sou gorda, sou musculada, com excepção da barriga pq fiz cesariana e posteriormente uma cirurgia. Uso biquini um pouco envergonhada, mas adoro vestir uma t-shirt e desfilar até ao bar quase com 40 anos com pernas que algumas miúdas de 20 nunca vão ter… A vida é assim, e as Barbies são muito irritantes, no ginásio, nas lojas, na mesa ao nosso lado e até na caixa dos brinquedos.

  4. Muito preconcito neste texto e respostas para quem quase nao vai a ginasio, eu frequento desde sempre e vejo muitas mudanças:
    1. Hj encontra-se todo tipo de pessoas de todos os pesos
    2. Os esterotipos descritos sao claramente a minoria ao contrario do passado.
    3. O desconforto esta mais dentro da cabeça das pessoas que nao gostam nem querem fazer esse esfoço.

  5. Olá Joana,

    Compreendo o texto dos estereotipos, de facto, algumas coisas ainda permanecem: as miudas maquilhadas e os rapazes a exibirem-se. Porém, tenho sobre esta questão uma opinião diferente. Os rapazes exibem os musculos uns aos outros. Para mostrar que treinam mais com mais peso, etc. As raparigas pois não percebo…andar maquilhada no ginásio é sobretudo um atentado à pele e se querem andar com jumpsuits justinhos é com elas. Não me incomoda nem nunca me incomodou…
    Mas quanto ao treino de grupos musculares estás completamente enganada. O facto da filosofia do crossfit não funcionar assim não significa que outras filosofias não funcionem.
    Tenho 44 anos e comecei no ano passado um programa de secagem com o Miguel Kennedy (miguel.kennedy@caloriejunkies.com) que mudou a minha vida e a meu conhecimento do exercício e da resposta do corpo ao exercício. Isto numa antiga ginasta de competição quer dizer alguma coisa. Treino 4 vezes por semana, a cada dia um grupo muscular diferente e termino com cardio HIIT, mas num dia só me dedico a um, no máximo 2 grupos musculares. O facto de ter perdido 10 kilos é quase pouco importante quando observo as mudanças no meu corpo e o comportamento dele. E perdi 10 kilos de gordura, não de massa muscular. Atenção…não tenho 30 anos, tenho 44. No fim do treino bebo um batido de proteínas com açucar para reconstruir a massa muscular. Aliás os batidos de proteinas são um grande aliado (com limite de batidos por dia). Saio do ginásio completamente vermelha-tomate e a arrastar-me porque o treino é duro. Mas tenho também que frisar uma coisa: já tive que pedir ajuda aos meus colegas musculados do ginásio que no início conheciam melhor as máquinas do que eu e salvo raras excepções ajudaram-me sempre e simpatia e gentileza! Têm aquele ar assustador mas são uns queridos e até me deixam partilhar máquinas no meio das séries deles. Os unicos que resistem a partilhar não são os “musculados” são os outros que nem sabem bem o que andam a fazer. E, embora nas boxes de crossfit não haja espelhos não é garante que todos os que lá treinam sejam essencialmente melhor colegas de ginásio do que os musculados. Mas sabes, Joana, a idade também vai fazer com que desistas de determinados estereotipos e de medos. A única coisa que me aborrece no ginásio é a sobre lotação na hora em que tenho disponibilidade para treinar, porque diminui o ritmo do meu treino, só isso. Agora, quem lá anda ou deixa de andar…se querem ir para a eliptica ou para a bicicleta falar ao telefone é com eles, auilo não é treino é outra coisa qualquer.
    Felicidades e vou continuar a acompanhar-te.

  6. Investir tempo, dinheiro e espaço para os fins justificarem os meios revela a insignificância de algumas espécies.

    Quando um elemento tem uma ideia preconcebida, por mais que passe despercebido aos olhos dos outros, os atos, pensamentos e emoções destes últimos são interpretados
    de acordo com o preconceito idealizado. Compreensível, uma vez criada a dimensão preconceituosa somos emboscados pelos nossos próprios pensamentos.

    Infelizes aqueles em que a sua existência depende da existência dos outros para não serem mais do que os “comuns” parasitas da sociedades

  7. Olá Joana,

    Hoje dediquei-me a ler o teu blog de uma ponta à outra – já acompanho a página no Facebook e de vez em quando vinha cá ler um ou outro texto – Revi-me na maior parte dos textos, em especial neste.
    Até aos meus 20 e poucos anos nunca estive acima do peso, andei sempre nos 55kg +- (meço 1.68m), mas nos últimos anos engordei muito – neste momento peso quase 70kg. Mesmo quando pesava 55, não gostava do meu corpo e agora muito menos. Fui-me deixado levar, pensava “oh, só engordei 3 kgs, quando chegar aos 60/65/70 tomo uma atitude”, mas o tempo foi passando e as atitudes ficavam-se por dietas de 2/3 dias e por idas ao ginásio em que ficava lá 5 minutos e já estava cansada – não fisicamente, mas cansada de fazer sempre o mesmo.
    Este ano decidi mesmo que tinha que mudar, fazer algo por mim e não pelos outros. Acima de tudo fazer algo pela minha saúde e bem-estar. Subia meia dúzia de escadas e ficava cansada, fazia um ou outro esforço ficava com os braços dormentes, entre outras situações menos agradáveis. Comecei a ter mais cuidado com a alimentação – passei a comer mais legumes, coisa que eu raramente comia – e pensei em voltar para o ginásio, mas esse passo era mesmo o mais difícil – porque concordo a 100% com o que escreveste sobre os ginásios, eu achava sempre que não pertencia ali.

    Entretanto comecei a ver alguns artigos, fotos, vídeos sobre Crossfit – confesso que no início pensava que isso era uma modinha tipo zumba, ou algo do género (nada contra a modalidade nem com quem pratica) – e um dia no trabalho comentei com um colega meu, na brincadeira, que gostava de experimentar uma aula. Ele levou aquilo a sério e apresentou-me uma amiga dele que já pratica CF há mais de um ano. Marquei um dia para ir com ela, digo-te que até tive pesadelos na noite anterior, lembro-me de entrar na box e pensar “mas que raios estou eu a fazer aqui?, ao fim do warm up eu pensava que a aula já tinha terminado (tanta inocência numa só pessoa hahaha) e nos dias seguintes as minhas coxas estavam “em ferida”, subir e descer escadas era uma tortura. Mas sabes que te digo? saí da box a pensar “vou-me inscrever!!”. Dito e feito, 15 dias depois, no início de Abril inscrevi-me no Crossfit – e em vez de optar por começar devagar, apenas duas vezes por semana, entrei a matar: vou todos os dias. Estou na segunda semana e vou sempre à aula das 8.00, ainda não falhei uma, embora às vezes me custe imenso levantar com dores pelo corpo todo, todos os dias saio da box a pensar “fogo, hoje foi mesmo puxado, vou morrer”, mas ao outro dia estou lá e adivinha? o treino é sempre pior que no dia anterior e nem assim me apetece desistir. E sim, no meu grupo sou a mais “novinha”, a que acaba sempre em último, a que fica com as cargas mais leves, mas não me sinto mal por isso, nem acho que os meus colegas me olham de lado e pensam “o que é que esta baleia desengonçada veio para aqui fazer”, muito pelo contrário: se sou a última tenho direito a uma claque, já me aconteceu fazerem mais voltas para me acompanharem e incentivarem. Não digo que não haja entreajuda no ginásio, mas falo por experiência própria: o ambiente é totalmente diferente – e não há espelhos para selfies, só nos resta mesmo dar no duro ahahah

    Outra coisa que adoro no CF é o facto de não fazer sempre a mesma coisa, cada WOD é um kinder surpresa: nunca sabemos o que vamos fazer naquele dia. E é essa expectativa que me faz levantar todos os dias super cedo – e eu que era fã de dormir de manhã – para ir treinar.

    E tenho que te agradecer, pois os teus testemunhos foram sem dúvida um empurrão para que eu me decidisse a experimentar este vício 😀

    Beijinhos **

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