Mês: janeiro 2016

Rabo desprezado

Existo há sensivelmente 30 anos. Por volta dos 15 ou 16 comecei a ser completamente desprezado. Ofendido até. A dona do corpo em que eu vivo começou a odiar-me. No rabo saio ao meu pai, dizia ela, vezes sem conta, e eu ouvia, triste, sem saber como melhorar para a deixar mais feliz. Ok, eu assumo que o crescimento não me tornou redondo, nem lisinho. Mas também, ela só comia caca. Doses industriais de refrigerantes, batatas fritas com fartura, sacos de gomas. Não há rabo que resista. E a celulite? Ela foi-me detestando cada vez mais. Não ficava bem nas calças, não ficava bem sem calças, não ficava bem de maneira nenhuma. Ultimamente, tenho-me sentido mais acarinhado. Já a vejo a olhar para mim com alguma ternura. Já sorri quando vê a minha imagem refletida no espelho. Tenho levado cada tareia, chiça. Está constantemente a agachar, a fazer squats, como dizem os estrangeiros, e eu estou a esforçar-me por estar à altura. Tenho dado por mim mais subido, mais redondo, mais firme, mais direitinho. E não é que ela anda mesmo contente. Anda, anda. Acho que é desta que a minha existência muda e eu passo de um desprezado, para um rabo (quase) venerado.

Detox o caraças, pá!

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Tenho recebido mensagens a perguntar que receitas detox tenho para estes dias, para me livrar dos excessos das festas. Detox, essa palavra que se tornou viral com a história dos sumos verdes. Eu própria enlouqueci com isso. E gostei, confesso. Sumos com água de côco, espinafres, cenoura, abacaxi e mais uma quantidade de cenas maradas. Os sumos sabiam bem, mesmo. Porém, estão longe de constituírem, por si só, uma opção equilibrada. Quem é que pode achar que se pode alimentar só de sumos? Eu sei que era só por um ou três dias, mas mesmo assim. Quem diz sumos diz águas, diz sopas, diz chás. Tudo é detox hoje em dia, valha-nos Deus. Tenho respondido que depois de cometer algumas loucuras alimentares me esforço por beber mais água, por me mexer mais e por ter cuidado com aquilo que como, mas sem muitos exageros. Até porque nos devemos preocupar com os estragos ao longo de todo ano, que às vezes são mais do que imaginamos, e dar menos importância a dois ou três ou quatro dias de maior liberdade. Até porque os detoxs da vida nada valem contra anos de má alimentação e falta de treino. O melhor e mais eficaz detox é o dia a dia equilibrado. Pudesse isto tornar-se verdade universal.

Saber lidar comigo

Eu nem sempre soube lidar comigo. Acho que me ouvia pouco. Sobretudo em relação ao meu corpo. Eu não gostava dele, é certo, mas eu também não me dedicava a perceber o seu funcionamento. Vivia numa atividade permanente de autoengano. Eu explico. Eu queria ser magra, mas comia sem parar. Pesava-me muitas vezes. Quando me assustava com os números deixava de comer. Emagrecia. Vinham-me as fomes e eu voltava a comer. Engordava. Anos a fio.

Outra coisa que fazia, sempre que estava a ser acompanhada por algum técnico, era adiar as consultas, achando, num perfeito devaneio, que se emagrecesse aos olhos da nutricionista ela ficaria feliz. Como se a minha perda de peso fosse para ela, para a agradar ou como se me fosse pôr de castigo por não ter emagrecido. Se não adiava a consulta, não jantava no dia anterior e no próprio dia comia muito pouco ou quase nada. Que palhaça que eu era.

Acho que hoje sei lidar melhor comigo. Numa das consultas a doutora disse-me que nunca poderei ser daquelas pessoas que come, come, come sem pensar nos efeitos que isso terá no meu corpo. Terei sempre tendência para engordar, eu sei. Porém, hoje já não me engano, nem me puno. Se comi, comi, está comido. Como só às vezes, em situações especiais. Já não me peso diariamente, nem adio consultas. Assumo o que faço, aceito e sigo caminho. Levei anos a aprender isto.

Pequena debulhadora

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Estão a ver aquelas debulhadoras que lavram os campos de cereais, que varrem tudo por onde passam? Foi o que fui na última semana. Uma pequena grande debulhadora, que enfardou até mais não. Andei tão contentinha da minha vida, meu Deus. Alguns dirão: anda aqui o tempo todo a pregar isto e aquilo sobre comportamento alimentar e quê e agora vem p’aqui dizer que comeu sem parar? Que fraude. Eu aguento. Comi tudo o que me apeteceu sem me preocupar [muito] se ia engordar ou não. Porque noutros tempos, num dia como o de hoje, eu estaria a fazer mil e uma promessas, que passavam por passar uma fome dos diabos a partir de amanhã, num disparate pegado e com uma desistência próxima na certa. Estaria prestes a começar uma nova dieta. Em vez disso, sei que amanhã volto à minha alimentação de todos os dias e aos treinos de Crossfit. Sei que, mesmo que tenha engordado, o meu corpo voltará a si num ai. Porque agora me preocupo mesmo com ele. Porque agora já não o sujeito a restrições doidas. Só o nutro, com tudo o que precisa, e lhe dou umas tareias valentes. É por isso que, de vez em quando, posso ser uma pequena debulhadora. Não todos os dias. Só alguns.

Ser Feliz no Gerês

Ai, que eu estava mesmo a precisar de parar uns dias. Parar para respirar, para fazer um balanço do ano que passou e para (me) preparar para este que agora começa. Fui para o Gerês com um grupo de amigos e fui profundamente feliz. A viagem, que começou em Lisboa, teve como primeira paragem o Porto. Aí, malhei logo uma francesinha dos diabos, que me soube pela vida, e uma musse de chocolate como há muito não comia. Este foi o princípio do fim. Comi, comemos, como se não houvesse amanhã. Farinheira, chouriço, queijo, picanha, entrecosto, bacalhau, pão, pão, pão, tudo o que há de bom. Mas não foi só comer. Deu também para passear muito, enjoar nas curvas da serra, ver paisagens magníficas, dormir, visitar umas termas magníficas, pôr um pézinho em Espanha, rir até cair de joelhos, descansar. Deu para ser feliz. Amanhã começa tudo outra vez. Que comece o trabalho, os treinos, a vida de todos os dias, que às vezes me mói, mas que me ensina a valorizar dias de ouro como estes últimos que vivi. Que comece 2016.
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Obrigada, Afonso, pelas fotos a preto e branco, tão bonitas.