Existo há sensivelmente 30 anos. Por volta dos 15 ou 16 comecei a ser completamente desprezado. Ofendido até. A dona do corpo em que eu vivo começou a odiar-me. No rabo saio ao meu pai, dizia ela, vezes sem conta, e eu ouvia, triste, sem saber como melhorar para a deixar mais feliz. Ok, eu assumo que o crescimento não me tornou redondo, nem lisinho. Mas também, ela só comia caca. Doses industriais de refrigerantes, batatas fritas com fartura, sacos de gomas. Não há rabo que resista. E a celulite? Ela foi-me detestando cada vez mais. Não ficava bem nas calças, não ficava bem sem calças, não ficava bem de maneira nenhuma. Ultimamente, tenho-me sentido mais acarinhado. Já a vejo a olhar para mim com alguma ternura. Já sorri quando vê a minha imagem refletida no espelho. Tenho levado cada tareia, chiça. Está constantemente a agachar, a fazer squats, como dizem os estrangeiros, e eu estou a esforçar-me por estar à altura. Tenho dado por mim mais subido, mais redondo, mais firme, mais direitinho. E não é que ela anda mesmo contente. Anda, anda. Acho que é desta que a minha existência muda e eu passo de um desprezado, para um rabo (quase) venerado.

2 Comments on Rabo desprezado

  1. Não bastava voltar à alimentação normal, sem excessos e sem necessidade de cortar? O corpo naturalmente perde esses kg. A nao ser que ainda esteja em perda de peso. Bj

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