Mês: novembro 2015

OST #9


Sempre tive, aos olhos dos meus amigos e da minha família, um gosto musical duvidoso. Mas foi coisa com que nunca me importei. Foram muitos anos de Big Show Sic a vibrar com as Ágatas, com os Excesso e com as Tentações da vida. Peçam-me um medley destes artistas, e de outros, e ficarão surpreendidos. Hoje são as kizombadas que dão cabo de mim. E por que é que hei-de lutar contra isto?

“…tu és a miúda que me faz sentir calor, sentir o amor, sentir-me bem…”

Ainda sobre a compulsão

Estou sem palavras para as reações ao texto de ontem, sobre a compulsão. Tal como eu previa, há muita gente que continua a passar exatamente pelo que eu passei. Estou cada vez mais grata por ter começado esta Perna Fina, na medida em que me inspira a ser cada vez melhor, por mim e por quem me lê todos os dias e se identifica com o que escrevo. Só posso desejar que cada um consiga encontrar o seu caminho e comece a tratar verdadeiramente de si. Porque pode parecer, mas nem sempre é fácil.

Abdominais

A barriga foi sempre a parte do meu corpo que mais escondi. Não gostava dela e era fácil de perceber porquê. Hoje em dia, quando me vejo ao espelho, ainda me custa a crer que a imagem refletida é a do meu corpo. Sobretudo, a zona da barriga. É que eu ia jurar que já se vêem umas saliências, que é como quem diz, uns abdominais mais definidos. Ando afincada nisto. Já mais do que uma pessoa me disse que os abdominais se definem na cozinha. Ou seja, o que comemos tem muuuuuuuuita influência no estado do corpo em geral, no da barriga em particular. E a verdade, é que isto da contenção me ajudou a secar a barriga como nunca. Estou em ânsias pelo Natal. Creio que antes da chegada das rabanadas tenho uma barriga que sim senhora. A propósito, Pernas Finas mais queridos do mundo inteiro, como estamos de desafio #atéaontal?

Compulsão alimentar

Este é um tema delicado, do qual falo, agora, com alguma tranquilidade. Um tema que esteve na minha vida, muito além da teoria, que me fez sofrer, que quase me fez desistir de mim, que me fez desrespeitar-me e tratar-me mal. Este é um tema sério, que, creio eu, afeta muita gente. Partilho isto com quem me lê, na esperança que possa ajudar alguém, dizendo que não tem mal nenhum pedir ajuda. O que interessa mesmo é querermos lutar contra os nossos fantasmas, encarando-os de frente, com algum medo, mas com esperança em dias melhores.

Eu esforço-me por perceber quando é que aquilo começou e não sou capaz. Lembro-me de, em miúda, não gostar de comer, de ser um sacríficio. Vomitava muito, sentia-me muitas vezes mal disposta. A minha relação com a comida nunca foi fácil. Na mudança de idade, passei a comer tudo o que não tinha comido antes. O crescimento trouxe-me a possibilidade de receber semanada, que eu comecei a gastar em todo o tipo de porcarias. Lembro-me de comer 4 gelados num dia, por exemplo.

Tinha 15 anos. O peso começou a chegar e eu fui deixando que se instalasse. Depressa, era a única miúda a ter banhas e celulite. A única que não usava o umbigo de fora. A única que não usava biquini. Era tão miúda, nem percebia bem o que se estava a passar, mas sabia que não podia vestir a mesma roupa das outras. Isso era das coisas que mais me constragia.

Porém, acho que sempre fui muito mais do que o meu corpo. Sempre tive muitas opiniões e sempre me fiz ouvir. Sempre cantei e dancei muito. Sempre estive na fila da frente em tudo o que me meti. Delegada de turma, representante da comissão de não sei do quê, responsável disto e daquilo. Sempre senti que a minha personalidade falava mais alto que a bóia que tinha à volta da barriga, mas ela estava lá e eu sabia bem disso.

Quando comecei o ciclo das dietas, parei de comer. Parei de comer à frente dos outros. Afinal, eu era gorda, tinha começado uma dieta. Toda a gente sabia disso. Acho que foi aqui que o problema começou. Sem perceber muito bem como, fazia por ficar sozinha para poder comer. Se só eu soubesse não havia mal nenhum. Eu não me julgava. Eu comia porque me sabia bem. Fazia-me feliz. Fiz isso uma vez, no final do dia de aulas e depois foi sempre a piorar.

Lembro-me de apanhar um autocarro diferente do dos meus colegas, porque íamos, efetivamente, para sítios diferentes. Na viagem, ia já a pensar no que ia comer. Normalmente, comia bolos. Às vezes comia hambúrgueres. Outras, hambúgueres, batatas fritas e gelado. Tudo a que tinha direito. Comia até ficar maldisposta, muitas vezes. Comia muito, porque não comia durante o dia. Eu estava de dieta!

Quando os meus pais me ofereceram um carro, os esquemas para comer tornaram-se mais requintados. Passava o dia a pensar onde ia no final do trabalho, só para poder comer. Chegou a acontecer comer um bolo numa pastelaria e pedir outro para embrulhar, por ter vergonha que me vissem a comer dois bolos duma vez. Comia o segundo assim que entrava no carro. Como se precisasse daquela dose para viver. Para viver em paz. Uma paz podre.

O pico da compulsão foi há muito pouco tempo, em 2014. Lembro-me de chegar a casa e comer dois folhados de carne, uma tablete de chocolate e um litro de refrigerante. Lembro-me também de esconder as embalagens todas no lixo, como se quisesse esquecer que tinha feito aquilo a mim própria. Mas fiz. Fiz muitas vezes. Por diversas razões, que aqui pouco interessam. Podia tentar encontrar culpados, mas não acho necessário fazê-lo.

Hoje a minha relação com a comida é mais tranquila. Continuo a gostar muito de comer e a regalar-me com os mais variados pitéus. Ainda ontem, #deusmeperdoesenistopeco, jantei uma bruta duma francesinha. Contudo, como com a consciência necessária para saber de que está tudo bem. Está tudo bem porque uma refeição não define o corpo que eu tenho, nem quem eu sou. Mais, como porque me apetece. Não porque estou triste, nem carente, nem vazia. Como porque acredito que, hoje em dia, o meu comportamento alimentar é o de uma pessoa saudável: que come de tudo um pouco e que, às vezes, se permite a comer coisas menos equilibradas.

Quando me lembro do que fiz a mim própria, tantas vezes, sinto uma certa mágoa. Devia ter ouvido o meu coração mais cedo. No fundo, eu já sabia que aquilo não podia ser normal. Eu sentia que não estava bem. E não estava mesmo. Continuo a frequentar as consultas da doutora Catarina por isto também. Para ter quem me ajude a analisar a relação que vou mantendo com a comida. A perda de peso, foi apenas consequência disto mesmo. É por ter esta certeza que sei que não vou voltar a engordar. O que eu faço não é uma dieta. O que eu faço é cuidar de mim, todos os dias. Para ser magra e fit, sim, mas para estar em paz comigo.

Eu sei que falo nisto da felicidade muitas vezes, mas eu não consigo deixar de falar nisso mesmo: eu estou muito feliz comigo. Finalmente, eu levanto-me todos os dias com a certeza de que gosto de mim, que enfrento o dia a dia com menos inseguranças, com maior capacidade de discernimento e decisão. Enquanto eu tiver voz, eu falarei sobre isto, com a profunda esperança que todos aqueles que vivem com algum tipo de dependência se permitam a sair dela. A serem livres. Como eu sou.

Em quanto tempo?

Depois de ter anunciado a meta dos 20 quilos, ouvi algumas vezes a pergunta: em quanto tempo? Se eu quiser ser precisa, terei de responder 15 anos. Há 15 anos que eu comecei a ganhar peso e me descontrolei em relação à comida. Ao longo destes 15 anos emagreci e engordei muitas vezes. Fiz muitas dietas, muito restritivas, perdi peso, voltei a comer, ganhei todo o peso outra vez.

O meu máximo de peso foram os 77 quilos. Suponho que tenha até sido mais. No dia em que vi o 77 na balança, para começar uma nova dieta, já tinha fechado a boca há umas semanas. Mas, como não tenho a certeza disso, considero o 77 o número máximo. Isso foi há 4 anos. Com essa dieta cheguei aos 69 quilos. Essa dieta, que era muito pouco equilibrada, durou cerca de um ano. Depois disso, farta daquilo tudo, voltei aos 75 quilos. Era esse o peso que tinha no Natal de 2013, quando a Perna Fina nasceu, na cozinha da minha avó.

Cinco meses depois, em maio de 2014, chego às consultas da doutora Catarina com 72 quilos. Procuro as consultas, precisamente, por perceber que sozinha não estava a conseguir. Procuro-as, também, por só nessa altura ter assumido p’ra mim mesma, contra tudo e contra todos, que tinha um comportamento de compulsão alimentar, que me estava a condicionar a vida. É, no ínicio do blogue isto não foi nada fácil. A minha vida pessoal estava pelas ruas da amargura e eu comia, sem parar, para preencher um vazio que não sabia bem explicar. Comia muito, mesmo.

A doutora Catarina, que não consigo parar de elogiar, foi muito compreensiva comigo, mas também muito assertiva e, aos poucos, de forma gradual, eu comecei a perder peso. Quilo atrás de quilo. Até à última quinta-feira, em que a balança marcou uns simpáticos 57 quilos. Por isso, só agora comemoro os 20 quilos. Porque como nunca sinto-me dona do meu corpo, capaz de o construir e nutrir como nunca fui. Em quanto tempo? Durante uma vida. Agora, uma vida muito mais feliz.

É por isto

Querida Joana,
Desde que comecei a ler o seu blogue que dois pensamentos me surgiram: o 1.° foi que finalmente alguém tem um bloque e sabe, efetivamente, escrever. Com isto quero dizer que adoro a sua ironia e a conjugação de algumas palavras só por torná-las mais próximas da palavra falada. Além disto, uma boa escritora não só cativa pela sua escrita, como principalmente acompanha os leitores que, durante o dia-a-dia, se questionam: o que será que a Joana escreveu hoje?

O meu 2.° pensamento foi que a Joana é muito honesta e escreve para pessoas reais. Fala sobre a sua relação com a comida, as suas aprendizagens pelo caminho, a sua luta por aprender a gostarmos de nós próprios em primeiro lugar (Que é sem dúvida o mais importante. Como podemos gostar/cuidar do outro se não o fazemos a nós mesmos?) Posto isto, adoro a sua jornada, o carinho e a dedicação que tem aos seus alunos e, naturalmente, tudo conjugado para uma vida mais saudável, mais feliz.

Obrigada por continuar a falar sobre nutella (adorei ser este o presente de Natal para si própria), sobre francesinhas e milka e não ser daquelas pessoas que, como a própria Joana já disse, procuram soluções rápidas e dietas milagrosas e um “emagreci 20 quilos num mês e nunca mais como açúcares ou HC”. A propósito, muitos parabéns. É sem dúvida um marco incrível. Os seus hatters devem estar a roer-se de inveja.

Bolas, acho que me alonguei demais. Peço desculpa. Acrescento só mais uma coisinha: estarei à espera do seu livro. Muita Força até ao Natal e todos os meses seguintes. Como a Joana já sabe: vale meeeeesmo a pena ser saudável.

Um beijinho de quem muito a admira.

Vinte quilos!

Hoje é um dia muito feliz. Hoje eu posso gritar, p’ra toda gente ouvir, que perdi vinte quilos. Vinte quilos que valiam por vinte mil. Vinte mil complexos, vinte mil tristezas, vinte mil compulsões, vinte mil dores de estômago, vinte mil cenas más. Estou muito grata ao meu corpo por estar a colaborar comigo nisto. Podia, perfeitamente, armar-se num pequeno estupor e deixar-se estar. Mas não. Estou muito grata a todas as pessoas que, todos os dias, me incentivam a ser melhor e a cuidar de mim. Grata à doutora Catarina. Grata aos coaches, que têm tanta paciência para me aturar. Grata à minha querida mãezinha, que me ajuda tanto na preparação das refeições de todos os dias. E, por último, grata a mim mesma, por, finalmente, ter começado a ser verdadeiramente minha amiga e a tratar-me bem. E não, eu não sei como vai ser a partir daqui, mas tenho a certeza que vai ser bom.

Os melhores do mundo

Olho para eles e percebo que estão demasiado crescidos. Como é que o tempo passou tão depressa? Como é que já passaram quatro anos? Quando escolhi esta profissão, foi com isto que sonhei. Sonhei com a possibilidade de ajudar miúdos a crescer. A crescer de muitas formas. No conhecimento que têm do mundo, que têm dos outros, que têm de si próprios. Porque isto de aprender e ensinar está muito além de escrever textos e fazer contas. Para mim, centra-se sobretudo no saber ser. Saber ser, para saber fazer, para saber o saber.

Amo os meus alunos duma forma incondicional. Amo-os como se fizessem parte de mim. Defendo-os até à morte e odeio que falem mal deles, qual mãe a galinha a defender os pintos. Acho-lhes graça, rio-me com eles, tento ser melhor, um exemplo. Um exemplo de ser: justa, competente, capaz, batalhadora, forte. Tento isso tudo todos os dias. Por eles, por mim.

Olho para eles, agora com dentes, alguns da minha altura, e percebo que posso ter sido importante nas suas vidas. Com a minha ajuda aprenderam a escrever, a ler, a pensar matemática, a desenvolver o cálculo, a fazer projetos, a planificar o seu trabalho, a serem críticos. Aprenderam a ser gente mais crescida, mais capaz, mais autónoma, mais segura de si. E vê-los assim enche-me o peito.

Estes últimos anos fizeram-me crescer tanto. Pessoalmente, a minha vida mudou como nunca e eles foram, muitas vezes, a única alegria do meu dia. Amo-os por isso também. Por me fazerem melhor do que eu lhes faço. E a separação que se antevê, já me começa a matar de dor. Saber que se vão causa-me, à partida, uma imensa saudade. Virão outros, eu sei, que amarei com a mesma intensidade, mas o que eu sei vive agora em mim. Apesar disso, olho para eles e sei-os prontos para ir. Passarei por eles nos corredores. Sentirei sempre o mesmo amor. Serão sempre um bocadinho meus. E eu deles.

Somos todos Pernas Finas #6

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Sempre me conheci gordinha, desde que me lembro de existir. A tendência que tenho para o excesso de peso é inegável e foram algumas as tentativas que fiz para emagrecer, com sucesso momentâneo, porque acabei sempre por recuperar o peso perdido (e mais ainda).

Há pouco mais de 5 meses, decidi colocar um ponto final no estilo de vida que seguia, com uma alimentação nem sempre cuidada e total sedentarismo. Esses fatores, associados à ingestão diária de medicação ao longo de 3 anos para tratamento de problemas de saúde, fizeram com que eu chegasse aos 85 quilos. Passei mais de um ano sem subir a uma balança e, quando o fiz, o choque foi grande. Estava com 22 anos, 85 quilos, para 1,65 metros, o que me dava um IMC 31 (obesidade grau 1) e um corpo que eu não reconhecia como meu. Estávamos no final de Maio de 2015.

Sou Educadora de Infância e, pela primeira vez, ia fazer praia com os meus meninos. De imediato, por razões óbvias, pus de parte a ideia de ir de biquini. Decidi então ir comprar um fato de banho. Experimentei várias cores do mesmo modelo e optei pelo preto pois todos os outros realçavam ainda mais a minha gordura. Posso dizer que jamais esquecerei aquilo que senti, ao olhar-me ao espelho, no provador do Jumbo, dentro de um fato de banho tamanho 44. As palavras que ecoaram na minha cabeça foram exatamente estas: “estou transformada num monte de gordura com pernas”.

No dia 29 de Maio de 2015, tive o chamado clique e decidi que tinha de mudar. Sem desculpas nem barreiras, eu ia mudar. Desde então, graças à minha reeducação alimentar, apoiada por um nutricionista, e atividade física diária, eliminei 32 quilos, o que, para mim e para os que me rodeiam, é surpreendente.

Foram, exatamente, 32 quilos perdidos em 4 meses e 3 semanas. Perdi peso a uma velocidade nada comum, sem perdas significativas de massa muscular, sem recurso a qualquer tipo de medicação nem a dietas malucas. Estabeleci a meta dos 55kg e fui ainda mais além: hoje estou com 53 quilos e nunca me conheci tão magra.

Para além de ter aprendido a gostar de um novo tipo de alimentação, descobri a paixão pelo fitness e hoje posso dizer que já não sei viver sem praticar exercício físico diariamente. Sinto-me abençoada com esta vitória e nunca me senti tão feliz comigo mesma. Cada vez tenho mais a certeza de que não existem milagres, existe dedicação, persistência e força de vontade.

Se temos um sonho, temos de lutar por ele. Com unhas e dentes. Custe o que custar. O meu sonho realizou-se, ou melhor, fui EU que realizei o meu sonho. Esta é uma jornada para a vida e sei que não a vou abandonar, porque eu não estou a fazer dieta: estou a viver um estilo de vida saudável sem data para terminar e pelo qual me apaixono a cada dia. Sobretudo porque hoje me sinto outra pessoa, não só no corpo, mas na ALMA. E isso não mudará, jamais.

(Podem seguir-me através da minha página de Instagram, onde partilho o dia a dia desta minha jornada: https://instagram.com/bodyandsoul_anamachado/)

Ana Margarida Machado

Sobre ele

Dizia-me a minha mãe: não escrevas mais sobre ele. Vai parecer que estás ressabiada, que as coisas não estão resolvidas dentro de ti. Mas estão. As coisas estão perfeitamente resolvidas dentro de mim. Não guardo mágoas, não guardo rancores. Só alívio. Se continuo a escrever aqueles textos é porque sei que continuam a haver pessoas que vivem diariamente relações de desamor e que, também por causa disso, se maltratam das mais diferentes formas. Julgam não ser merecedoras de mais, nem de melhor. Porque se sentem infelizes consigo, incapazes de mudar. Por eu saber tão bem o que é viver com esse sentimento, é que me dedico a escrever sobre ele. O que eu vivi foi demasiado real. Para mim foi. Para muitos continua a ser. Por isso, continuarei a escrever sobre isto e sobre tudo o que me apetecer.