Este é um tema delicado, do qual falo, agora, com alguma tranquilidade. Um tema que esteve na minha vida, muito além da teoria, que me fez sofrer, que quase me fez desistir de mim, que me fez desrespeitar-me e tratar-me mal. Este é um tema sério, que, creio eu, afeta muita gente. Partilho isto com quem me lê, na esperança que possa ajudar alguém, dizendo que não tem mal nenhum pedir ajuda. O que interessa mesmo é querermos lutar contra os nossos fantasmas, encarando-os de frente, com algum medo, mas com esperança em dias melhores.

Eu esforço-me por perceber quando é que aquilo começou e não sou capaz. Lembro-me de, em miúda, não gostar de comer, de ser um sacríficio. Vomitava muito, sentia-me muitas vezes mal disposta. A minha relação com a comida nunca foi fácil. Na mudança de idade, passei a comer tudo o que não tinha comido antes. O crescimento trouxe-me a possibilidade de receber semanada, que eu comecei a gastar em todo o tipo de porcarias. Lembro-me de comer 4 gelados num dia, por exemplo.

Tinha 15 anos. O peso começou a chegar e eu fui deixando que se instalasse. Depressa, era a única miúda a ter banhas e celulite. A única que não usava o umbigo de fora. A única que não usava biquini. Era tão miúda, nem percebia bem o que se estava a passar, mas sabia que não podia vestir a mesma roupa das outras. Isso era das coisas que mais me constragia.

Porém, acho que sempre fui muito mais do que o meu corpo. Sempre tive muitas opiniões e sempre me fiz ouvir. Sempre cantei e dancei muito. Sempre estive na fila da frente em tudo o que me meti. Delegada de turma, representante da comissão de não sei do quê, responsável disto e daquilo. Sempre senti que a minha personalidade falava mais alto que a bóia que tinha à volta da barriga, mas ela estava lá e eu sabia bem disso.

Quando comecei o ciclo das dietas, parei de comer. Parei de comer à frente dos outros. Afinal, eu era gorda, tinha começado uma dieta. Toda a gente sabia disso. Acho que foi aqui que o problema começou. Sem perceber muito bem como, fazia por ficar sozinha para poder comer. Se só eu soubesse não havia mal nenhum. Eu não me julgava. Eu comia porque me sabia bem. Fazia-me feliz. Fiz isso uma vez, no final do dia de aulas e depois foi sempre a piorar.

Lembro-me de apanhar um autocarro diferente do dos meus colegas, porque íamos, efetivamente, para sítios diferentes. Na viagem, ia já a pensar no que ia comer. Normalmente, comia bolos. Às vezes comia hambúrgueres. Outras, hambúgueres, batatas fritas e gelado. Tudo a que tinha direito. Comia até ficar maldisposta, muitas vezes. Comia muito, porque não comia durante o dia. Eu estava de dieta!

Quando os meus pais me ofereceram um carro, os esquemas para comer tornaram-se mais requintados. Passava o dia a pensar onde ia no final do trabalho, só para poder comer. Chegou a acontecer comer um bolo numa pastelaria e pedir outro para embrulhar, por ter vergonha que me vissem a comer dois bolos duma vez. Comia o segundo assim que entrava no carro. Como se precisasse daquela dose para viver. Para viver em paz. Uma paz podre.

O pico da compulsão foi há muito pouco tempo, em 2014. Lembro-me de chegar a casa e comer dois folhados de carne, uma tablete de chocolate e um litro de refrigerante. Lembro-me também de esconder as embalagens todas no lixo, como se quisesse esquecer que tinha feito aquilo a mim própria. Mas fiz. Fiz muitas vezes. Por diversas razões, que aqui pouco interessam. Podia tentar encontrar culpados, mas não acho necessário fazê-lo.

Hoje a minha relação com a comida é mais tranquila. Continuo a gostar muito de comer e a regalar-me com os mais variados pitéus. Ainda ontem, #deusmeperdoesenistopeco, jantei uma bruta duma francesinha. Contudo, como com a consciência necessária para saber de que está tudo bem. Está tudo bem porque uma refeição não define o corpo que eu tenho, nem quem eu sou. Mais, como porque me apetece. Não porque estou triste, nem carente, nem vazia. Como porque acredito que, hoje em dia, o meu comportamento alimentar é o de uma pessoa saudável: que come de tudo um pouco e que, às vezes, se permite a comer coisas menos equilibradas.

Quando me lembro do que fiz a mim própria, tantas vezes, sinto uma certa mágoa. Devia ter ouvido o meu coração mais cedo. No fundo, eu já sabia que aquilo não podia ser normal. Eu sentia que não estava bem. E não estava mesmo. Continuo a frequentar as consultas da doutora Catarina por isto também. Para ter quem me ajude a analisar a relação que vou mantendo com a comida. A perda de peso, foi apenas consequência disto mesmo. É por ter esta certeza que sei que não vou voltar a engordar. O que eu faço não é uma dieta. O que eu faço é cuidar de mim, todos os dias. Para ser magra e fit, sim, mas para estar em paz comigo.

Eu sei que falo nisto da felicidade muitas vezes, mas eu não consigo deixar de falar nisso mesmo: eu estou muito feliz comigo. Finalmente, eu levanto-me todos os dias com a certeza de que gosto de mim, que enfrento o dia a dia com menos inseguranças, com maior capacidade de discernimento e decisão. Enquanto eu tiver voz, eu falarei sobre isto, com a profunda esperança que todos aqueles que vivem com algum tipo de dependência se permitam a sair dela. A serem livres. Como eu sou.

12 Comments on Compulsão alimentar

  1. Oh meu deus quase chorei a ler isto. Identifico-me tanto com este texto 🙁 . Mas temos que ter força. Temos que ser nós a dar o primeiro passo. Temos de ser nós a enfrentar tudo de frente e pedir ajuda. Parabéns! E obrigada! Obrigada por escreveres e partilhares tudo isso. Posso dizer que me inspiraste e inspiras, nesta batalha dura de perder peso e fechar a boca para muita coisa. Obrigada do fundo do coração. Continua!

  2. Ao ler este texto arrepiei-me.. podia perfeitamente ser eu a escrever a primeira parte… sofro do mesmo problema à cerca de 2 anos e já estou a entrar em fase de desespero.. tanto que já marquei uma consulta com a Dra Catarina porque já vi que sozinha não consigo, que preciso de ajuda! De certa forma fiquei “aliviada” por saber que não sou a única e que o problema não é só meu.. que isso pode acontecer a qualquer um! Parabéns por teres conseguido e espero conseguir também 🙂 e um obrigada por partilhares isto connosco! Beijinho

    • Quando li isto sorri por saber que não sou a unica, vou à segunda consulta de psicologia agora…. espero ver melhorias porque penso que ninguem me pode ajudar com esta vontade demoniaca que sinto em comer todos os doces que existam no planeta. Sou magra mas luto por um corpo saudável, um vida saudável e sentir-me bem comigo. Nao consigo viver bem comigo num dia em que estou 16h acordada e 14h a pensar em comida. Nao consigo perdoar-me pela quantidade de comida que consigo ingerir até ficar mal disposta e com sentimentos de culpa gigantes, de colocar os pacotes vazios na carteira e no dia seguinte colocar ao lixo na rua para que em casa nao reparem. Sinto que sou diferente de todos os que me rodeiam, parece-me que a relação dos outros com a comida é tão simples, tem fome comem e quando estão saciados param. Sei que aquilo que faço não é normal e tenho vergonha de admitir e não sei quando isto começou, penso muitas vezes como é que eu era antes de ser assim mas não me consigo lembrar. Eu e a comida temos uma péssima relação.

  3. Identifico-me na totalidade com a tua partilha, pelo que, só poderia agradecer a coragem!
    Ainda hoje dou por mim a entupir-me de comida e, isso é algo que não me podia deixar mais frustrada. Como pode a comida tornar-nos tão irracionais?
    Foram muitas as vezes que comia às escondidas, cheguei a sair de casa, como se de uma emergência tratasse, para comprar “porcarias”. Sempre que vinha de fim-de-semana, só queria chegar a casa e ir à dispensa. Parecia uma criança em busca das suas prendas de Natal! E os convívios em família? Uma perdição (…) Foram muitas as vezes que saí para comer “porcarias” também, sozinha, num acto não de fome mas de desespero. Cheguei a comer tanto que, o meu corpo rejeitava a comida, fazendo-me vomitar! Eu não comia por fome, na verdade, eu já estava farta de comer, nem sequer me apetecia continuar a comer mais, a comida sabia-me mal já. Porém, não havia meio de parar. Foram alguns os dias que passei, de cama, num mal estar insuportável.
    Felizmente já lá vão três anos e, embora, volta meia volta, as emoções se apoderem de mim, em momentos de maior fragilidade, acredito que tenho em mim a força suficiente para lutar. A minha relação com a comida certamente será sempre algo complicada, porém, com a garra necessária, sei que conseguirei, tal como todas vocês conseguirão! Para mim, a estabilidade emocional foi a minha grande salvação. Não deixem de procurar ajuda, lutem por vocês mesmas!

  4. As tuas palavras sao maravilhosas. Estas e as que escreves todos os dias… A minha relaçao com a comida tambem ja foi muito pouco saudavel, com a diferença de nunca ter sido gorda (abençoado metabolismo?) mas revejo-me nas atitudes, iguais às tuas, tal e qual… O esconder-me para comer, o despejar a despensa em menos de 1h…
    Neste momento sinto me feliz e bem comigo mesma, reaprendi a alimentar me e quando penso nas quantidades de porcarias que comia pergunto me como é que é possivel! Onde é que cabia aquilo tudo!?
    Por isso acho muito bem que continues a escrever, que continues a ser o exemplo que es e que ajudes muitas pessoas a “acordarem” e tratar de si mesmas.
    Beijinhos

  5. Olá!
    Sou uma leitora diária do teu blogue, há dias que venho cá e vou reler textos antigos na esperança de também eu sentir o meu “clique”… Mas não… Ainda não 🙁
    Nunca comentei, contudo hoje a ler este teu texto senti mesmo vontade de dizer: “tiraste-me as palavras da boca” (ou será do coração?!)
    Bem , tudo isto para dizer que vou tentar, vou mesmo tentar fazer algo por mim.
    Obrigada Joana…
    Beijinho*

  6. já desconfiava que tinha um problema com a comida, mas agora tenho certeza que tenho e que tem nome. Como tenho um peso normal ninguém se apercebe torna-se mais fácil. Nunca tinha percebido antes o porquê de ter necessidade de comer às escondidas como se fosse um crime às vezes pensava sobre isso… Acho que estou sem palavras..

  7. Obrigada, Joana, pelas partilhas diárias. É de facto inspirador todos os resultados já alcançados e espero, sinceramente, que me dê rapidamente o click, preferencialmente na cozinha da minha avó que é uma fonte de maus caminhos.
    Já fiz e refiz e voltei a fazer todas as dietas e mais algumas. Já comi só ananás e melancia, já deixei os hidratos todos e mais alguns, já rocei a bulimia, à conta dos laxantes diários (devido à culpa que sentia por comer). Quero muito ser uma nova Joana.. e são testemunhos como o seu que nos incentivam.

    Obrigada!

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