A minha doutora deu-me um presente que não precisou de embrulho. Deu-me a sua visão do percurso que tenho vivido desde que a conheci, escrevendo um texto que me comoveu até às entranhas. Foi a única pessoa que compreendeu o meu problema com a comida. Quando eu falava no meu vício a familiares ou a amigos próximos, ninguém me levava a sério. Diziam que eu tinha de fechar a boca e pronto. Se eu bebesse até cair, se eu me drogasse, se eu gastasse todo o meu ordenado em jogo, talvez percebessem a minha compulsão. Como o meu vício era a comida, e ficar gorda era a única consequência, o meu problema, aos olhos dos outros, era apenas uma enorme gula. Não era bem assim.

“A J era uma das muitas “J’s” que persistem no mundo: mal com o seu corpo, consigo mesma, insegura e triste. A comida era a sua maior inimiga, mas também o seu maior conforto. Descrevia na primeira consulta, há cerca de 10 meses, a sua relação conflituosa com a alimentação. Chorou. Não de vergonha, mas de medo. Medo de não conseguir libertar-se daquele corpo que não reconhecia e daquele comportamento compulsivo que a prendia num ciclo sem fim de “dieta” desde muito jovem. Fazia atividade física intermitente, tal como a sua relação com a comida, auto-penitenciando-se.
“Um caso difícil…” pensei para mim, “mas vou conseguir ajudar a J”.
A primeira consulta foi longa, tumultuosa e extenuante para ambas. Foi explicado à J que o seu comportamento alimentar tinha de mudar, que tinha de abandonar o “como tudo ou não como nada” para conseguir ter sucesso a longo prazo e ter força para continuar, que as compulsões tinham de parar. Para isso precisávamos de tempo, sinceridade, perseverança, garra, trabalho de equipa, confiança e de mudar de atitude!
A verdade é que foi mesmo assim. A J “agarrou-se” à sua oportunidade. Teve altos e baixos na sua vida que, claro, afetaram a alimentação. Mas foi mais forte. Reconheceu e aprendeu que a alimentação saudável não é uma dieta, é um estilo de vida e é para sempre.
Juntas fomos construindo o seu plano alimentar, que tanto mudou nestes 10 meses, até estar realmente perfeito, totalmente “à sua medida”.
Porém, a J não mudou a sua vida só com a alimentação, procurou um desporto que a satisfizesse e desafiasse! Tem-se superado e surpreendido, já não há limites para o que consegue fazer, até o pino!
E o que interessa o peso inicial e final da J para a sua história? NADA! A história é sobre a sua mudança de atitude perante a vida, foi isso que a fez ter sucesso e não a dieta X”, Dietista Catarina Cachão Bragadeste.

Um obrigada do tamanho da minha felicidade à Doutora Catarina, por me ter ajudado sempre, com tanta generosidade, compreensão e assertividade. Obrigada por ter acreditado em mim, no meu potencial, na mulher que queria ser, sem saber como. Ser-lhe-ei eternamente grata.

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