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Nunca foi fácil a relação entre mim e o meu corpo. Lembro-me da primeira vez que o odiei. Tinha 14 anos quando reparei numas marcas na pele, que não tinham resultado de nenhum arranhão, nem de nenhuma queda. Eram estrias. Eram avermelhadas, quase roxas e, como nunca me tinha acontecido antes, senti vergonha de estar na praia com os meus colegas. Pela primeira vez evitei mostrar-me demasiado nas fotografias que foram tiradas durante esse dia. Estas marcas insignificantes no meu corpo foram o meu primeiro ódio de estimação. Seguiram-se as mamas, que cresceram mais do que era suposto e depressa se partiram com o peso. Era difícil encontrar um sutiã que me sustentasse bem o peito e, ao mesmo tempo, não fosse demasiado adulto, dada a minha idade. O rabo igual ao do meu pai também sempre me incomodou. A partir daqui, foi sempre a piorar.

Nenhum exercício físico, a não ser os da aulas de educação física, nas quais me mexia muito pouco, e uma péssima alimentação fora de casa, levaram-me a inúmeras perdas e ganhos de peso. Mais estrias. Mais celulite. Mais cenas más. As idas à praia eram mesmo o pior de tudo. Houve um ano que não pus o pé na areia. Recusei-me mesmo. Não queria que ninguém olhasse para mim: gorda e demasiado branca. Como se todas as pessoas que estivessem na praia olhassem para mim e me achassem uma aberração de tão branca e de tão gorda. (As pessoas querem lá saber disso!)

Anyway, foi preciso chegar aos 28 anos para aceitar verdadeiramente o meu corpo. As mamas tiveram intervenção divina (que dinheiro tão bem empregue!), mas as estrias, a celulite e o rabo igual ao do meu pai continuam cá. Apesar disso, aos 28 anos, e depois de um ano inteiro de boa alimentação e muito suor, consigo olhar para o espelho e não me importar com as marcas que os sacos de gomas e os Cheetos deixaram no meu corpo. Porque apesar de poder parecer uma frase feita, são precisamente aquelas marcas que me lembram a vida que vivi até aqui, os dias bons e os dias maus, os dias em que comi desmedidamente só porque estava triste, por exemplo.

Mesmo ao lado dessas marcas, começa também a ser visível o primeiro burpee, a sobremesa que recusei e os quilómetros que corri mais rapidamente por estar irritada com alguma coisa. E se não for por mais nada no mundo, que esta Perna Fina nunca deixe de existir em mim, na medida em que me permite adorar este corpo que é meu, com a maior admiração, respeito e verdade que me são possíveis.

3 Comments on Esta capacidade de adorar o meu corpo

  1. Joana, és uma inspiração! Eu estou agora a começar nesta lida de afinar as pernas e todos os pneus de tractor alojados em mim. Como tu, as mamas foram uma cena que Deus fez questão de me dar em abundância! E assim como tu já tiveram intervenção divina, e sim, foi o melhor investimento do mundo!! 😀
    Um beijinho grande e obrigado pelas tuas partilhas! Obrigado por me inspirares e mostrares que é possivel! Continua!
    P.S. comentei este post mesmo porque as mamas e as intervenções nos unem LOL (salvo seja!)

  2. Olá
    Revejo me em cada palavra tua Perna Fina 🙂
    Mas, apesar de ter praticamente os 28 feitos, ainda tenho alguma intranquilidade ao ir à praia. Ainda há um certo desconforto ao qual eu me debato e batalho contra . Vou ganhando lutas a mim mesma e aprendo a gostar de cada pedaço meu =)
    És uma optima inspiração ,continua a escrever e a deliciar nos
    Um beijo

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