Mês: Março 2015

Regresso ao passado #4

São 17:00 e eu posso sair do trabalho. Não me apetece ir já para casa. Talvez esteja a precisar de dar uma volta. Entro no carro e a minha cabeça começa imediatamente a disparar 1000 alarmes: quero comer qualquer coisa que me saiba bem. Que dia de merda! Que falta de paciência! Sim, vou comer qualquer coisa que me saiba bem. Eu posso, no fim de semana fiz uma caminhada valente e a semana passada comi sopa de manhã à noite. Acho, até, que estou mais magra. É, posso comer qualquer coisa que me saiba bem. Sozinha, para pensar na minha vida ou para me esquecer dela. Sem julgamentos, um segredo entre mim e mim.

Já sei o que me apetece. Um cheeseburguerzinho e uma cola pequena. Já estou a salivar. Há uma semana que não toco em batatas fritas, que são o meu alimento preferido do mundo inteiro. Começo a conduzir com a música aos berros, como se quisesse abafar a ideia que tive e canto alto, muito alto, como se pusesse o piloto automático, como quem diz que não quer saber para onde vai, nem por que razões quer ou acha que precisa de comer.

Chego ao Mc e pondero pedir no McDrive. Não. Vim até aqui, está um dia bonito, vou estacionar o carro e vou caminhar até lá. Saio do carro e, ainda sem pensar muito no que me move, vou até à caixa para pedir o tal cheeseburguer. Que horas são? 17:30? Epá, se comer agora já não janto. Peço ‘masé um menu, com tudo a que tenho direito. Ah, e um gelado também, que eu gosto de limpar o palato. Ketchup. Molho para batatas. E um saquinho de nuggets, porque não?

Pego em tudo e vou sentar-me na mesa mais isolada que encontro. Olho para o telemóvel e passo os olhos pelas notícias. vejo o que os meus amigos do facebook andam a postar e vou comendo. Devoro as batatas, quentes e cheias de sal, sem pestanejar. Vou intercalando com os nuggets, sempre sem pensar muito. De que me adianta pensar? Como o hambúguer, bebo a cola até ao fim e delicio-me com o gelado.

Acabo de comer e sinto-me enfartada. Se calhar comi demais!? Não. Agora até estou mais calma e o dia já não me parece tão mau. Por um descargo de consciência vejo as calorias disto tudo que comi: hambúrguer – 600 cal; cola – mais de 300 cal; batatas – 500 cal; nuggets – 300 e tal cal e gelado – 300 e não sei quantas cal. Ai que caraças, uma vez disseram-me que para eu emagracer, tinha de comer apenas 1200 calorias por dia e agora, numa refeição, comi mais de 2000! Sou mesmo estúpida! Eu até já tinha lanchado! Tinha alguma necessidade de engolir isto tudo? Tinha? Pronto: está feito, está feito. O resto da semana volto às sopas, de manhã à noite.

Biquínis e fatos de banho (triquínis não!)

Ai o verão! Estou em crer que este será O verão. Se não for por mais nada, será por eu me sentir incrivelmente saudável e de bem com a vida e, por isso, poder desfrutar tranquilamente de tudo o que o Universo me oferecer. (Uma grande amiga garante-me que o Universo, quando eu menos esperar, será muito generoso comigo. Assim seja!)

Se durante toda a minha existência a época balnear foi um martírio, este ano pensar em escolher roupa de praia provoca-me calafrios, calafrios dos bons. As redes sociais estão cheias de fotos de biquínis e fatos de banho de perder a cabeça e eu já não consigo parar de pensar na possibilidade de deslizar p’los areais desse Universo a passear este corpinho crossfitado (LOL).

Como há muita oferta, ainda não pensei bem no que quero usar. Gostava de ter um fato de banho, acho muito elegante, e não visto nenhum desde miúda. Mas também não digo que não a um biquínizinho com folhos ou coisas assim. Talvez compre um de cada e vá variando. Depende dos valores, claro, que alguns são autênticos assaltos à carteira.

Estes são pura inspiração.

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Onde é que posso adquirir o cabelo (e o bronze?!) da miúda da primeira foto?
Dava-me um jeitão.

O melhor presente

A minha doutora deu-me um presente que não precisou de embrulho. Deu-me a sua visão do percurso que tenho vivido desde que a conheci, escrevendo um texto que me comoveu até às entranhas. Foi a única pessoa que compreendeu o meu problema com a comida. Quando eu falava no meu vício a familiares ou a amigos próximos, ninguém me levava a sério. Diziam que eu tinha de fechar a boca e pronto. Se eu bebesse até cair, se eu me drogasse, se eu gastasse todo o meu ordenado em jogo, talvez percebessem a minha compulsão. Como o meu vício era a comida, e ficar gorda era a única consequência, o meu problema, aos olhos dos outros, era apenas uma enorme gula. Não era bem assim.

“A J era uma das muitas “J’s” que persistem no mundo: mal com o seu corpo, consigo mesma, insegura e triste. A comida era a sua maior inimiga, mas também o seu maior conforto. Descrevia na primeira consulta, há cerca de 10 meses, a sua relação conflituosa com a alimentação. Chorou. Não de vergonha, mas de medo. Medo de não conseguir libertar-se daquele corpo que não reconhecia e daquele comportamento compulsivo que a prendia num ciclo sem fim de “dieta” desde muito jovem. Fazia atividade física intermitente, tal como a sua relação com a comida, auto-penitenciando-se.
“Um caso difícil…” pensei para mim, “mas vou conseguir ajudar a J”.
A primeira consulta foi longa, tumultuosa e extenuante para ambas. Foi explicado à J que o seu comportamento alimentar tinha de mudar, que tinha de abandonar o “como tudo ou não como nada” para conseguir ter sucesso a longo prazo e ter força para continuar, que as compulsões tinham de parar. Para isso precisávamos de tempo, sinceridade, perseverança, garra, trabalho de equipa, confiança e de mudar de atitude!
A verdade é que foi mesmo assim. A J “agarrou-se” à sua oportunidade. Teve altos e baixos na sua vida que, claro, afetaram a alimentação. Mas foi mais forte. Reconheceu e aprendeu que a alimentação saudável não é uma dieta, é um estilo de vida e é para sempre.
Juntas fomos construindo o seu plano alimentar, que tanto mudou nestes 10 meses, até estar realmente perfeito, totalmente “à sua medida”.
Porém, a J não mudou a sua vida só com a alimentação, procurou um desporto que a satisfizesse e desafiasse! Tem-se superado e surpreendido, já não há limites para o que consegue fazer, até o pino!
E o que interessa o peso inicial e final da J para a sua história? NADA! A história é sobre a sua mudança de atitude perante a vida, foi isso que a fez ter sucesso e não a dieta X”, Dietista Catarina Cachão Bragadeste.

Um obrigada do tamanho da minha felicidade à Doutora Catarina, por me ter ajudado sempre, com tanta generosidade, compreensão e assertividade. Obrigada por ter acreditado em mim, no meu potencial, na mulher que queria ser, sem saber como. Ser-lhe-ei eternamente grata.

Esta capacidade de adorar o meu corpo

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Nunca foi fácil a relação entre mim e o meu corpo. Lembro-me da primeira vez que o odiei. Tinha 14 anos quando reparei numas marcas na pele, que não tinham resultado de nenhum arranhão, nem de nenhuma queda. Eram estrias. Eram avermelhadas, quase roxas e, como nunca me tinha acontecido antes, senti vergonha de estar na praia com os meus colegas. Pela primeira vez evitei mostrar-me demasiado nas fotografias que foram tiradas durante esse dia. Estas marcas insignificantes no meu corpo foram o meu primeiro ódio de estimação. Seguiram-se as mamas, que cresceram mais do que era suposto e depressa se partiram com o peso. Era difícil encontrar um sutiã que me sustentasse bem o peito e, ao mesmo tempo, não fosse demasiado adulto, dada a minha idade. O rabo igual ao do meu pai também sempre me incomodou. A partir daqui, foi sempre a piorar.

Nenhum exercício físico, a não ser os da aulas de educação física, nas quais me mexia muito pouco, e uma péssima alimentação fora de casa, levaram-me a inúmeras perdas e ganhos de peso. Mais estrias. Mais celulite. Mais cenas más. As idas à praia eram mesmo o pior de tudo. Houve um ano que não pus o pé na areia. Recusei-me mesmo. Não queria que ninguém olhasse para mim: gorda e demasiado branca. Como se todas as pessoas que estivessem na praia olhassem para mim e me achassem uma aberração de tão branca e de tão gorda. (As pessoas querem lá saber disso!)

Anyway, foi preciso chegar aos 28 anos para aceitar verdadeiramente o meu corpo. As mamas tiveram intervenção divina (que dinheiro tão bem empregue!), mas as estrias, a celulite e o rabo igual ao do meu pai continuam cá. Apesar disso, aos 28 anos, e depois de um ano inteiro de boa alimentação e muito suor, consigo olhar para o espelho e não me importar com as marcas que os sacos de gomas e os Cheetos deixaram no meu corpo. Porque apesar de poder parecer uma frase feita, são precisamente aquelas marcas que me lembram a vida que vivi até aqui, os dias bons e os dias maus, os dias em que comi desmedidamente só porque estava triste, por exemplo.

Mesmo ao lado dessas marcas, começa também a ser visível o primeiro burpee, a sobremesa que recusei e os quilómetros que corri mais rapidamente por estar irritada com alguma coisa. E se não for por mais nada no mundo, que esta Perna Fina nunca deixe de existir em mim, na medida em que me permite adorar este corpo que é meu, com a maior admiração, respeito e verdade que me são possíveis.