(Como hoje esteve tempo de praia, lembrei-me deste texto que escrevi há algum tempo. Ainda não o tinha publicado aqui.)

Sabem quando os pêlos começam a crescer, e ainda não estão capazes para serem arrancados, mas já dão o ar de sua graça? Eu digo para mim própria: que se lixe, quem é que me vai olhar para as pernas? Agora vou à praia. Logo trato disso. Chego à praia e percebo que com a luz do sol a coisa se vê mais do que devia e cada viagem ao mar é feita com o seguinte pensamento: espero que ninguém note que pertenço à família dos macacos.

Depois há um momento em que tudo se complica. Estou perto da saída da praia, não vá acontecer um arrastão ou coisa que lhe valha, e por isso consigo observar todas as pessoas que entram no areal: avós e netos, mães, pais e filhos… E príncipes! Um deles vem de chinelo no pé e de jornal debaixo do braço, mas como é tão lindo e brilha tanto, parece vir montado num unicórnio branco, à minha procura. E ali fica ele, sozinho, estendido ao sol, a ler o jornal com um ar despreocupado. Como se chamará? Hércules, John Smith, Eric, William? De que reino virá?

Chiça, digo eu como quem rosna! Ando há meses a treinar e a comer como deve ser para fazer boa figura em todo o lado, nomeadamente junto de príncipes que aparecem montados em unicórnios, e estou “cheia” de pêlos? Argh!!! Se eu fosse capaz de ir ter com ele e de lhe dizer uma frase foleira, se eu fosse capaz, o que é que o príncipe me diria? “Desculpa, tens um ar muito simpático e foi muito gentil da tua parte vires aqui falar comigo, mas eu estou à procura de uma princesa, não de uma espécie de macaca!”

Nesse momento eu usufruiria da proximidade da saída da praia e dos treinos de corrida que tenho feito e iria para casa a correr, só para chorar um bocadinho, para me “fazer um homem” (como diria um aluno meu). Quando acabasse de chorar faria uma árdua investigação sobre técnicas de depilação e escolheria a mais dolorosa, só para me penalizar. Ou, então, passava o dia inteiro a olhar para o príncipe e a imaginar como seria a minha vida com ele. Quando chegasse a casa tratava dos pêlos, esperando que no dia seguinte o príncipe aparecesse de novo na praia, me visse e percebesse, sem hesitar, que eu sou a macaca, ai, a princesa dos seus sonhos!

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