Mês: Fevereiro 2014

Carta às minhas Pernas

Queridas Pernas,

Escrevo-vos esta carta porque sinto que vos devo um enorme pedido de desculpas. Ao longo dos anos tenho-vos maltratado, ofendido e estimado muito pouco. Sendo o mais honesta que consigo, confesso-vos que nunca morri de amor por nenhuma das duas. Sempre vos achei demasiado, vá, gorduchas, meias tortas, com uns joelhos de fugir… Isto já para não falar da chegada da celulite. Quando deixaram que essa hóspede se instalasse, a minha revolta convosco tocou no limite.

Porém, hoje, vejo-vos com outros olhos. Os anos têm-me trazido tranquilidade e capacidade de pensar cada vez melhor. Não, não posso dizer que vos passei a achar perfeitas, lindas de morrer, dignas de se mostrarem ao lado das da Ivete Sangalo, mas posso dizer-vos que sinto por ambas um novo carinho, muito especial. De facto, vocês não cabem no esteriótipo, mas são vocês que, à vossa maneira, me permitem andar por onde quero, correr mais depressa ou mais devagar. São vocês as primeiras a sentir o friozinho da água do mar no verão e a ficarem em escamas no inverno (porque raramente vos unto com creme, sorry). Para além disso, são vocês que vivem constantemente apertadas nas calças que comprava na esperança de emagrecer, mesmo sabendo que não fazia nada por isso.

Queridas pernas, por tudo isto, peço-vos desculpa. Se são como são, em parte, é culpa minha. Se eu tivesse começado a mexer-vos há mais tempo… De qualquer forma, não posso terminar esta carta sem vos prometer que a vossa vida está, por esta altura, com sérias hipóteses de melhorar. Eu tenho-me esforçado e as duas têm-se portado bem. Agora, não sei se vamos a tempo de fazer milagres (eu cá não acredito muito em milagres), mas vamos a tempo de sermos felizes juntas, de nos aceitarmos assim como somos, ainda  que aceitemos de boa vontade alguns melhoramentos. Ah, mais uma coisa, não se sintam afrontadas com toda esta cena da Perna Fina. A Perna Fina vive dentro de mim e está muito além da vossa grossura ou finura.

Espero, sinceramente, que percebam os meus motivos e que me aceitem. Eu já vos aceitei e sinto-me melhor pessoa por isso.

Um grande beijinho,
Perna Fina.

A minha amiga Marta

A minha amiga Marta podia ter permanecido na minha vida apenas durante um curto período de tempo. Em vez disso, decidiu ficar. O meu coração pediu-lhe para ficar e o dela aceitou. Talvez sejamos amigas desde que nos conhecemos, embora não o soubéssemos claramente. As circunstâncias difíceis da vida podiam ter-nos afastado. Mas, ao contrário do que seria de esperar, juntaram-nos ainda mais.

Quando estamos juntas somos capazes de conversar durante horas: 2, 3, 4 horas. E temos sempre assunto! Falamos da vida em geral, falamos do tesouro que nos une, falamos sobre receitas, sobre educação, sobre escolhas. Falamos. E o tempo passa e nós não damos por ele. Os assuntos vão e vêm e a nossa cumplicidade aumenta e fortifica-se.

A minha amiga Marta, que é gira e inteligente que se farta, é daquelas pessoas que mais parecem uma bênção. Queremos tê-las connosco todos os dias, se possível… Mas, nos dias em que não as temos fisicamente por perto, sabemos, porque sentimos, que estão sempre ali. Quando nos voltamos a encontrar a conversa começa exatamente onde ficou. É uma amizade sem cobranças, que se constrói todos os dias, mesmos naqueles em que não nos vemos, nem nos falamos.

A nossa amizade renasce todos os dias e, porque assim o queremos, cresce mais um bocadinho a cada dia que passa.

Desafio dos 28 dias: 2.º dia

Hoje aumentei o meu tempo de corrida. “A coisa” estava a correr bem e passei de 30 para 40 minutos (LOUCURAAAAAA?!). Mas voltemos um pouco atrás.

Como ontem, alonguei, saí de casa e comecei logo a correr. Hoje já não me senti um elefante. Senti-me, talvez, um hipopótamozinho elegante. Os primeiros minutos foram tranquilos, até à chegada do inferno: a maldita subida. Num milésimo de segundo, eu olhei para a subida, a subida olhou para mim. E eu ganhei-lhe (ou p’lo menos ganhei a parte dela)! Corri, p’rái, 1/6 da subida e senti-me vitoriosa. A rua dos pesadelos ficou para trás e voltei a correr, nalguns metros mais depressa do que noutros. A dada altura torci o pé esquerdo, mas foi como se nada tivesse acontecido. Corri praticamente até chegar à porta de casa.

Hoje já não me atirei para o chão. Voltei a alongar e olhei-me ao espelho. Senti-me profundamente feliz: corri durante mais tempo, enfrentei parte da subida. A evolução é encantadora.

Amanhã há mais e nos próximos 25 dias também.

dica #5: Bepanthene, és espetacular!

No workshop de maquilhagem a que fui há 15 dias, a Sofia falou nos benefícios do Bepanthene. Pode ser usado como hidratante ou como pré-base. A verdade, é que o creme do rabinho dos bebés tem feito maravilhas à minha cara. A pele está muito mais hidratada, brilhante e com menos marcas de borbulhas. Está mais clara, também. Às vezes gastamos pequenas fortunas em cremes, sem necessidade.

Desafio dos 28 dias: 1.º dia

Hoje tive os melhores e piores 30 minutos da minha vida. Cumpri o primeiro dia do desafio das 28 corridas. Antes de sair de casa alonguei bem as pernas, como quem aquece os motores. Os minutos que se seguiram foram aterradores e entusiasmantes. É correr até cair, Perna Fina.

Comecei convicta, mas com algum medo. Confesso que à partida assumi que durante uma parte do percurso andaria. O sítio onde moro tem uma longa subida, que ainda não seria capaz de fazer a correr. Tirando essa rua, correr, correr, correr.

Saí de casa e comecei logo a corrida. Senti-me ridícula. Aos meus olhos parecia um elefante numa loja de louça, mas continuei. O ritmo era constante. Os meus pés pareciam fazer música. Começava a achar graça àquilo. Sempre de olho no relógio, percebi que de minha casa à tal subida levei apenas 8 minutos. Na subida, como antevi, o chão começou a andar para trás e o coração estava prestes a rebentar. A boca sabia-me a sangue e na cara sentia tanto calor como em pleno mês de agosto. A subida quase me matou. A arrastar-me, comecei a correr de novo. Agora, o elefante na loja de louça estava descabelado e com os bofes de fora. Pior não podia ser.

Corri, corri, corri e só parei de fazê-lo quase à porta de casa. “Céus, não fui feita para isto! Agora fui prometer, com testemunhas, que ia fazer isto durante um mês! Aiiiiiii!” Rebolei p’las escadas do prédio, entrei em casa e atirei-me, literalmente, para o chão do quarto. A janela estava aberta e o sol iluminava o espaço. Deitada de barriga para cima, de olhos fechados, senti-me sair de mim e sorri com tanta felicidade como aquela que encontro sempre que como chocolate.

Somos capazes de tudo o que queremos muito. O meu objetivo, para além de cumprir a promessa, claro, é conseguir correr aquela subida. Ah, maldita subida. Hei-de correr por ela acima.

Amanhã há mais e nos próximos 26 dias também.

Desafio dos 28 dias: É correr até cair!

Lembro-me da noite em que a Vanessa Fernandes ganhou a medalha de prata nos Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008. Vanessa, uma superatleta de triatlo! Andava de bicla, nadava e corria (não tenho a certeza se era por esta ordem). Lembro-me de a ver correr, já na parte final da prova, e de pensar: que mulher impressionante! Que capacidade de suportar a pressão, as emoções, a dor física.

Eu, o meu irmão e os meus pais estávamos doidos com a Vanessa. Portugal inteiro estava. Com a Vanessa e com o seu pai, um antigo ciclista vencedor. Durante toda a prova, sobretudo na parte da corrida, correu com a filha quase lado a lado. Gritou por ela, sofreu com ela, venceu com ela. Foi emocionante! “Corre, Vanessa! Estás bem! Acelera! Mantém, mantém! Vanessa, é correr até cair!”

Admirei a Vanessa Fernandes naquele dia e lamentei as notícias que surgiram, uns anos mais tarde, sobre o seu distúrbio alimentar. Admirei-a como admiro de forma inesgotável todas as pessoas que têm a rotina de correr. Faça sol, faça frio, chuva ou calor, lá vão elas correr todos os dias. Admiro-as tanto.

Nunca assumi para mim mesma que seria capaz de correr a sério. Andar rápido sim. Correr não. Sempre que tinha de o fazer o meu corpo e a minha alma faleciam aos bocadinhos. Há uns dias, em conversa com uma amiga, disse-lhe: não gostavas de ter a capacidade de correr todos os dias? Ela disse que sim, mas que nunca seria capaz de fazê-lo, que é demasiado .preguiçosa. Nesse momento pus na minha cabeça que ia começar a correr à séria a partir do dia 1 de fevereiro e que o faria, p’lo menos, durante os 28 dias do mês. “Sério?”, perguntou ela. Eu disse que sim. Hoje corri quase até cair e tenciono levar o compromisso até ao fim.

Com certeza, nunca serei uma atleta como a Vanessa Fernandes (apesar de ter a certeza que o meu paizinho iria gritar por mim com a mesma convicção que a do pai da Vanessa), mas serei a atleta que fizer por ser. Vou testar-me, desafiar-me e surpreender-me. Talvez me torne numa daquelas pessoas que admiro. Talvez até possa vir a ser admirada por alguém e que essa pessoa também comece a correr, em parte, por minha causa.

28 dias = 28 corridas? Desafio aceite.