Des-na-tu-ra-da

Sou uma desnaturada, eu sei. Tenho deixado este barraco ao abandono e ontem, quando a minha mãe me disse que não escrevia desde dia não sei quantos, senti-me péssima. Eu não estou morta para a vida, estou super ativa no Instagram e no YouTube (e nas férias, também!). Essa é que tem sido a questão: é que tive um ano de trabalho de bradar aos céus e precisei mesmo desta pausa. Porque escrever implica mais atenção do que publicar apenas uma foto, não é verdade?! Mas não se aflijam, que eu não estive só a descansar. Estas férias foram muito produtivas a muitos níveis, Perna Finamente falando também. As novidades não vão tardar e são melhores que boas. Assim que puder, conto tudo, tudo. Por enquanto, vou aproveitar esta última semana da melhor forma que posso e finalizar este bronze que está bem fixe.

Quantos quilos perdi?

Eu fui gorda, mas também fui muitas vezes magra. Fazia dieta atrás de dieta, perdia peso e engordava tudo outra vez (ou mais). Tenho memória de me ter posto em cima de uma balança, há mais de 6 anos e de ter mais de 80kg. 81 e picos. Desde que comecei a Perna Fina, já tive vários pesos: lembro-me de celebrar os 72, os 68, de ter ficado muito tempo parada nos 64, de ter chegado aos 61 e de me sentir incrível. O peso mínimo que tive foi de 57 quilos, por isso, de forma arredondada, digo que perdi 25 quilos.

Eu já peguei num peso de 25 quilos e é qualquer coisa de muito pesada. É impressionante! Perdi muita, muita chicha, é certo, mas mais do que isso: eu transformei o meu corpo. Neste momento, tenho a composição física de um pessoa dita atleta, o que me deixa muito, muito, feliz. Tenho um IMC de 21 kg/m2, nível 1 de gordura visceral (o valor mínimo de gordura ao redor dos órgãos) e muito mais de metade do meu peso é músculo. A minha idade metabólica é de 16 anos, o que é metade da minha idade real. Tenho 58 quilos.

Eu perdi muito peso, é verdade, mas a mudança que fiz no meu corpo já está muito além de um emagrecimento. Está numa profunda alteração de estilo de vida, de perspetiva do que é ser saudável. E feliz (comigo e com os outros).

Para pensar…

Não foi uma refeição, nem um treino, que me deu este corpo que tenho hoje. Foram muitas refeições boas, e muitos treinos bons, que me fizeram chegar aqui. Por isso, não será uma refeição, nem uma falta num treino, que me tirará esta conquista. Serão muitas refeições más, e muitas faltas aos treinos. Isto para dizer que o que nos emagrece, ou engorda, é o que fazemos como rotina. Nunca as exceções. Se nos apetece muito uma piza, devemos comê-la. Sobretudo se estivermos com amigos e família, numa festa, num jantar, em convívio. Os outros momentos, os mais solitários, os de todos os dias, talvez devam ser levados como rotina. E tudo correrá bem. Tudo.

Nenhum alimento emagrece!

Eu sei que a propaganda alimentar nos quer fazer acreditar nisso, que saem estudos e teorias e cenas todos os dias, mas deixem-me desenganar-vos: nenhum alimento emagrece. Nenhum! Nenhum tem calorias negativas! Nenhum nos vai fazer perder peso. Há alimentos bons, nutricionalmente equilibrados, que podem potenciar a perda de peso, por terem mais ou menos valor calórico. Mas por si só, nenhum, volto a frisar, nenhum alimento emagrece. Nem os brócolos, nem a alface, nem os ovos, nem o abacate, nem nada. O que emagrece é comer alimentos equilibrados, que todos, melhor ou pior, sabemos quais são e treinar. Estou sempre a escrever isto, mas não me canso: não há fórmulas mágicas, não há mais roda nenhuma para inventar. Só calorias a entrar e a sair. E a persistência. Chiça, que canseira.

Ninguém é melhor do que ninguém, esquece isso!

Esta altura do ano é particularmente difícil, não é? Tens o Instagram, o Facebook e as revistas cheias de imagens de miúdas em biquíni, a exibirem a sua boa forma, e a lembrar-te que, passado um ano, ainda não te consegues sentir bem contigo. Como é que passou um ano, como? Como é que passou mais um ano em que não cuidaste de ti? Em que voltaste a desistir da dieta? Em que voltaste a cancelar a mensalidade do ginásio? Como? Por que é que voltou a não funcionar? O que é que correu mal?

São estas as dúvidas que pairam na tua cabeça, não são? São as imagens das atrizes, das apresentadoras e das cantoras, de barrigas e pernas perfeitas que te fazem odiar-te um pouco mais, não é? Eu sei. Parece que o mundo é todo delas. Parece que nada lhe é negado… Sabes? O problema não está nelas. Nunca esteve. Está em ti, em nós, que não nos levamos a sério o suficiente para nos cuidarmos a sério e de um vez por todas. E nem vale a pena começarmos a encontrar desculpas para não sermos como as Cláudias Vieiras da vida.

Ah, porque elas têm acesso a todas as dietas que quiserem! Ah, porque elas têm os treinadores todos que quiserem! Ah, porque elas têm os tratamentos todos que quiserem! No final, elas têm isso tudo, verdade, mas têm também a força de vontade necessária para continuar a tratar do abono que a vida lhes deu. Porque, ei, não nos deixemos enganar, elas também têm acesso a todos os restaurantes e festas que quiserem, onde abunda a comida boa e a diversão e, ainda assim, escolhem tratar de si. Ninguém é melhor do que ninguém, esquece isso. Esqueçamos isso!

Em último plano, isto é sempre uma decisão unilateral, de mim para mim, de ti para ti. Não se trata de alguém ser melhor que nós ou ser mais bem tratada por ter acesso a mais coisas, o que pode ser uma realidade. Trata-se de um comprometido muito pessoal, muito difícil. Mas que vale mais a pena que todas as bolas de berlim do mundo.

Aceitação

Posso escrever todos os dias sobre o quanto a minha vida mudou nos últimos anos. Posso e devo, para inspirar outros e para me certificar comigo mesma que é real. Uma vez vi uma reportagem com um homem que tinha perdido quase 100 quilos. Era outra pessoa, quase irreconhecível. Dizia ele que o corpo tinha ficado magro, mas a cabeça não. Que frequentemente se desviava de objetos com a distância maior do que então necessitava, pois o seu pensamento era sempre o de não caber ali. Contava também que tinha de levar vários tamanhos de roupa para o provador, pois era muito difícil, de forma consciente, aceitar que vestia menos 10 números do que alguma vez vestiu. Vi aquela reportagem quando ainda não tinha perdido peso e, por isso, não compreendi o que dizia. Hoje percebo perfeitamente. Se vos disser que é com dificuldade que me reconheço em fotografias como esta, acreditam? Acreditem. Ainda dou por mim a ajeitar as calças, para não se ver a banha que já cá não está. Ainda dou por mim a cruzar os braços para esconder as mamas que entretanto foram à vida delas. Ainda dou por mim a duvidar que mudei. Ninguém nos prepara para isto. Para viver num corpo diferente daquele que tivemos durante muitos anos. É todo um processo de autoaceitação e de cuidado muito próprio. É bom, mas dá trabalho e não é sempre linear. A minha esperança é que este texto cause estranheza a quem quer mudar, como eu queria quando vi aquela reportagem. E que, um dia, possam sentir isto, que mesmo sendo estranho, é indescritível.

Deus me Livre do Pilates!

Eu sou uma pessoa tensa, eu sei! A este ritmo não chego a velha, mas não sei ser de outra maneira. Eu gosto de coisas (e pessoas!?) intensas, com vida, com ritmo, com ação. Eu sou assim. Sei que às vezes sou cansativa para os que estão à minha volta e tento refriar-me um pouco, mas há pouco a fazer.

Como treino muito e intensamente, estou sempre toda empenada. Não são lesões, são músculos que se contraem mais do que devem, que precisam de ser frequentemente alongados… E eu tenho pouco paciência para estar naquelas poses, tempos intermináveis a esticar-me toda, apesar de entender a necessidade.

A minha osteopata está sempre a dizer que tenho de me alongar mais, que o meu ritmo de treino assim o exige e que o Pilates me havia de fazer bem. Eu, que não sou de dizer que não a cenas que podem ser boas para mim, lá fui. Para começar, as pessoas já se conheciam todas, não é? Noutros tempos, não conhecer ninguém ia abanar-me, hoje foi só chato.

Bom, vi que estava toda a gente de chinelos, logo a aula devia ser de pé ao léu, e eu de ténis. Pensei: merda, terei os pés em condições?! Tinha. Depois a cena de ir buscar o tapete, pôr a toalha, tudo ordenado, menos eu. Nada novo também. A instrutora, uma simpatia, perguntou quem estava ali pela primeira vez. Lá tive de levantar o braço, não é?

E aquilo começou. Espreguiça dali, espreguiça daqui, a um ritmo que até a minha avó Perna Fina acompanharia. Alonga a lombar, alonga os ombros, alonga o pescoço, alonga tudo, raios me partam. Às tantas, ela fala em peso morto e eu pensei: ah, boa, aqui vou dar cartas. Esqueçam: era um deadlift para budistas! Que seca de gente e de aula!

Lá para o meio, deitada de costas a fazer não sei o quê, caguei naquilo tudo e baixei as pernas. A professora, amorosa, veio perguntar-me se me estava a sentir bem. Eu quis responder: eu estava melhor a fazer burpees, agora imagine o quão entediada estou! Mas só disse que sim e agradeci a preocupação.

Assim que aquilo acabou dei o pisga, não fosse preciso um abracinho amigável e coletivo, com toda a gente descalça, e eu que odeio pés, não ia aguentar tanta proximidade. O que há para reter nisto? Eu tentei. Eu tentei, mas a vida zen não é para mim. Eu sou uma besta, estão a ver? De atirar com pesos e dar socos. É isso.

Colo

Escrevo, e sempre escreverei, com a intenção de ser esperança. Esperança a quem passa por tudo o que eu passei e por isso sei o que custa. A minha voz também é vossa. O que nunca esconderei é que nem todos os dias são fáceis. Fácil é vestir uma roupa gira e tirar uma fotografia num espelho. Fácil é ler as mensagens que me mandam todos os dias, que me alimentam o ego (obrigada). Isso é fácil. Já esta decisão, a ser permanente tal como a desejo, tem dias bons, em que me sinto a maior, e tem outros dias de extremo cansaço, de desmotivação, de quase exaustão. E nesses dias, sabem o que me salva? Estar rodeada das pessoas certas. Aquelas que escolhi, e escolho todos os dias, para estarem ao meu lado. Porque no fim de contas, por muito forte que eu seja, por muito ambiciosa que me apresente, como todos, também preciso de colo. É o colo ponderado que nos embala. Sempre. Esta não sou eu a desistir de nada. Esta sou eu a sair de dias menos bons, a tornar o difícil mais fácil. A tentar ser feliz (durante a maior parte do tempo).

É possível engordar, comendo apenas comida saudável?

Os processos de emagrecimento parecem estar sempre a ser reinventados. A todo o segundo aparece uma dieta mais eficaz, um alimento promissor, um processo milagroso. São como cogumelos. Venenosos. Porque, só há uma maneira de emagrecer: gastando mais calorias do que aquelas que se consomem ou consumindo menos calorias do que aquelas que se gastam. O que se vai fazendo pelo meio pode funcionar com a Tia Joaquina e não resultar com a Prima Amélia e vice-versa. Isto é uma daquelas verdades inabaláveis.

Agora, claro que há uma série de princípios que são do senso comum: os doces, os fritos, os processados, não dão saúde a ninguém. Porém, a vaga da alimentação saudável traz consigo alguns equívocos, que podem ser prejudiciais a uma perda de peso sustentada e eficaz (não rápida!). Vou dar alguns exemplos: o abacate anda nas bocas do mundo. É uma gordura saudável e veio deitar por terra que as gorduras são inimigas da perda de peso. Aceite. No entanto, eu garanto, se comerem tostas de abacate de manhã à noite, talvez não emagreçam assim tanto como desejam.

Quem diz abacate diz frutos secos. Mesmo os que são ao natural. Os frutos secos são uma bomba calórica. Devemos consumi-los, sim, mas com conta, peso e medida. Basta procurarem no Google e verão inúmeras tabelas que mostram as quantidades diárias sugeridas de cada tipo de fruto. O mesmo se passa com a fruta. Sim, a fruta é saudável e tem montes de nutrientes bons, mas para quem quer perder peso, uma peça de fruta por dia é mais do que suficiente. A fruta é açúcar! Estes são apenas alguns exemplos de alimentos que nos podem levar ao engano.

Depois há o flagelo dos light, diet e zero. Já escrevi um texto sobre isto. Estes produtos são criados para serem comprados e para darem lucro, não para nos darem saúde. Por isso, não vão nas histórias das bolachas não sei quê, nem das granolas não sei quantas. Isso é tudo marketing. Neste sentido, ler os rótulos é fundamental. Quanto menos ingredientes tiver um pacote de qualquer cena, melhor. Muito melhor.

E assim de repente, parece-me ser isto. É possível engordar, comendo apenas comida saudável? É. Eu sei que esta minha questão levanta ainda mais dúvidas e deixa as pessoas ainda mais perdidas, mas julgo que, juntos, podemos começar este caminho. O mais importante é termos alguma noção do valor calórico daquilo que comemos e mexermos o bumbum. No fundo, interessa assegurar que gastamos mais do que ingerimos. Esse é o único milagre do emagrecimento. Quem disser o contrário disto, estará a mentir para vos tentar vender alguma coisa. Olhos abertos, minha gente, olhos abertos.